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Artigos

O choro do Pantanal

A maior extensão úmida do planeta tanto chorou que secou. Animais carbonizados. Os que conseguiram sobreviver, assustados com olhar atônito, não sabem para onde correr. Não entendem o que está acontecendo. Imagino que se perguntam: fizemos algo para merecer a dizimação? 

Árvores esturricadas, rios desidratados. As nuvens ouviram os gemidos agonizantes da Terra. Fizeram luto. Choraram água com fuligem escura.
A onça com as patas feridas, não consegue correr. Tal cena lembra nossa incompetência como mordomos da criação. Seremos demitidos pelo Criador?

A notícia nos chega como um espelho que reflete o lado sombrio e demente da humanidade.

Nós nos silenciamos. Inconsoláveis e imponentes, ficamos paralisados, sabendo que, depois do feito, para aquilo que já foi, pouco adiantará carta-aberta, nota de repúdio, culpar alguém ou abaixo-assinado. E agora, José? Quem lançou a primeira centelha de fogo? É alguém, um sistema, um projeto de governo ou tudo isso e nós? A destruição insistente daquilo que ainda resta dos biomas brasileiros têm a coparticipação de eleitores, do legislativo, do judiciário e do executivo. Nosso maior patrimônio deveria ter a proteção do Estado Brasileiro. A destruição da vida onde ela pulsava exuberante tem a assinatura de muitos. O DNA é do sistema que tem ânsia de expansão, de bater recordes de PIB, de safra, de minério e de rebanho. Sempre mais e mais, sem o tempo de reflorestar e reconstruir. Nossa estética é de tratores, motosserras, escavadeiras, dragas. Esses equipamentos falam da nossa linguagem e disposição. Destruímos aquilo que nos dá a vida e sustento: a água dos rios, as árvores e a possibilidade de continuarmos existindo. Ignorantes somos nós!


A centelha está em nossas demandas de consumo, em nossa avidez de comer e consumir muito além que precisamos. Puro capricho. Autorizamos, como mercado, a expansão. Podemos, de igual modo, desautorizar com nossos hábitos, valores e estilo de vida. Hoje, comprar, comer, vestir, viver são atos políticos.

A vida prevalecerá, pois é inerente à natureza, contudo, estamos tensionando para além do limite de recuperação. Na paisagem da terra arrasada, seguiremos nossa rotina? Que os artistas desenhem, cantem, façam poemas e pintem esse momento, talvez a única forma de registrar esta desgraça – a falta de graça de nossa história. Sem tempo para o luto, precisaremos de uma grande aliança em defesa daquilo que nos resta. Chega de brincar com fogo.

Aleluia Heringer Lisboa Teixeira
Doutora em educação, diretora do Colégio Santo Agostinho - Unidade Contagem e Líder de Sustentabilidade da Sociedade Inteligência e Coração (SIC)

26 set
19 set
Tempo da Criação: momento para uma revolução ecológica

No dia 1° de setembro os cristãos do mundo inteiro celebraram o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Também nesse dia, deu-se início ao Tempo da Criação que abrange 34 dias, tendo seu término no dia 4 de outubro, dia dedicado a São Francisco de Assis. Mas o que é o Tempo da Criação?

O Tempo da Criação é um tempo de renovação da nossa relação com a criação e com o Criador, através da conversão, da oração e da ação. É um período de rezarmos pela Mãe Terra, de avaliarmos nossas ações e de estarmos juntos em oração com nossos irmãos e irmãs cristãos de outras denominações. É o momento propício para melhorarmos nossas práticas em relação ao meio ambiente, derrubar barreiras preconceituosas e antropocêntricas, de aproximarmo-nos mais de Deus e da natureza.

Se voltarmos no livro de Gênesis, veremos que Deus viu tudo o que tinha feito, e que tudo era muito bom (cf. Gn 1, 31). Deus viu que a criação era maravilhosa e que tudo era perfeito. Porém, por que o ser humano não cuidou dessa criação e não zelou por ela como Deus havia lhe confiado? Como a Bíblia nos ensina, o homem pecou ao comer o fruto da árvore do conhecimento. Isto é, o homem, ao buscar esse tão sonhado conhecimento, pensou ser maior que Deus, e foi nesse momento que brotou no coração humano a ganância, a soberba, o orgulho e o desejo de querer ser dono do mundo.

Dessa forma, o ser humano afundado em seu ego, se autocolocou como um ser superior às outras criaturas. Usou de sua inteligência para dominar e submeter o mundo natural. Pela razão e pela técnica, que, se por um lado trouxeram grandes benefícios para a humanidade, por outro deterioraram florestas, rios, povos e culturas. A mesma razão que trouxe conforto para a vida humana, é a mesma que trouxe a maior crise ético-política e ecológica para a humanidade – ético-política e ecológica porque ela não está restrita apenas às questões ambientais, mas também toca as questões sociais e morais.

É paradoxal pensar que a mesma razão que trouxe benefícios também ocasionou tamanha crise. Entretanto, a questão não é refletirmos sobre esse paradoxo, mas pensar um modo de vida que no mesmo instante que nos traga conforto e segurança, nos traga saúde e harmonia com o mundo natural.

O que grande parte das pessoas, instituições e líderes de governos pensam é que nós humanos estamos de certa forma distantes do mundo natural. Eis aí o foco central do problema. Enquanto permanecermos nessa visão, que somos superiores ao mundo natural, vamos continuar a preparar a nossa própria guilhotina.

A problemática ecológica não tem como resposta apenas políticas sustentáveis, como por exemplo, reciclar o lixo, plantar árvores nas calçadas e economizar a água. Sim, de fato isso é importante, mas a questão é bem mais complexa do que imaginamos. Ela envolve o ser humano enquanto ser subjetivo, ser cultural, ser social e ser natural. Tudo está interligado, não apenas no âmbito natural, mas também no âmbito daquilo que foi criado pelo ser humano. A revolução que a Terra espera de nós é sistemática e estrutural, ou seja, ela também tem que vir do sistema que nos rege.

Nesse sentido, por exemplo, uma pessoa desabastecida economicamente não tem condições de adotar uma atitude sustentável como nos apresenta a grande mídia e as políticas verdes, sendo que a mesma não ganha o suficiente para tal. É egoísmo de nossa parte pensar que todos na sociedade tem uma estrutura econômica e social que a possibilite adotar um modelo de vida sustentável e ter acesso a tais ideias e práticas; a nossa sociedade é segregadora e muitos jovens não terminam nem o Ensino Médio.

Essa é apenas uma das questões que devemos nos fazer se quisermos de fato uma revolução ecológica. Teremos que mexer na estrutura que domina a nossa sociedade e o nosso modo de vida. Por isso que é uma revolução. Os indígenas e os povos tradicionais muitas vezes são assassinados porque vão na contramão desse sistema; e aí está uma das consequências que vamos ter se, de fato, adotarmos uma postura ecológica: poderemos sofrer o martírio, assim como Jesus e muitos cristãos sofreram por defenderem a vida.

O primeiro passo talvez dessa revolução seja arrancar de nossas mentes esse pensamento antropocêntrico e tecnocrático que nos foi imposto desde crianças. Percebermo-nos como parte inseparável do mundo natural, em todos os nossos aspectos, seja ele subjetivo, social e ambiental. Se quisermos mudar a nossa realidade, devemos mudar a nós mesmos. Esse Tempo da Criação é o tempo por excelência para refletirmos sobre o nosso modo de vida, sobretudo, nós cristãos. Se estamos de fato sendo irmãos da criação ou se estamos submetendo-a a nossos luxos e ganâncias. É o tempo de nos fazer sentir parte do mundo natural, de sentirmo-nos criação de Deus e entrar em harmonia com o mundo natural. E que através da oração tomemos atitudes para uma verdadeira revolução ecológica.

Luís Filipe Silva Gomes
Pré-noviço agostiniano, bacharelando em Filosofia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino – 6º Período (Belo Horizonte – MG).
E-mail: luisfilipe145@gmail.com 

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10 set
“TEMPOS DE ESPERANÇAR...” Mística e profecia em tempos de incerteza

Todo o contexto vivenciado pela sociedade mundial nos leva a acreditar que os tempos são difíceis, e que não vamos encontrar soluções para todos os males que nos assolam. Muito se fala de que virão novos tempos, que precisamos nos reinventar, ter uma nova maneira de ver a realidade... Mas isso realmente irá acontecer?

É um grande risco nos prendermos a expressões padronizadas que, diante dos diversos problemas da atual conjuntura, nos condiciona a simplesmente encara-la como apenas mais um momento vivenciado pela humanidade. Acredito que aqui está um grande desafio a nós, cristãos: propagar a esperança, vislumbrando o novo a partir de nossa mudança concreta.

Dentro deste panorama Frei Carlos Mesters, religioso carmelita e missionário propagador da leitura popular da Bíblia, tem defendido que hoje “urge a necessidade de entre nós, povo de Deus, o aparecimento de profetas do nosso tempo”. Os profetas são, seja na Bíblia ou ao curso da história da Salvação, os que acolheram a missão de falar da Palavra do Senhor por meio de um programa de esperança: o anúncio, a denúncia e a consolação.

O profeta Amós nos auxilia a compreender como podemos utilizar da mística e da profecia para a propagação desse programa esperança em tempos de crise e desilusão. Amós viveu numa época em que os poderosos adquiriam riquezas para sustentar suas vidas luxuosas em seus palácios, aumentavam seus bens para satisfazer desejos extravagantes, utilizando-se, para isso, de impostos abusivos, empréstimos com altos juros e fraudes, que iam tornando o povo cada vez mais endividado, na condição de trabalhar, não para viver, mas para pagar as dívidas, mesmo às custas de suas moradias. Sendo o profeta que foi, questionou a injustiça social, a opressão e a indiferença que o povo sofria por parte desses poderosos.

Mas esta realidade é uma história recorrente, é algo que está presente ainda em nossos dias atuais. Desta maneira, Amós continua sendo um profeta para os tempos atuais e o seu testemunho profético continua a dar voz a essas questões que são atemporais e estão presentes em todos os lugares.

Uma dimensão bem saliente em Amós é o fato de ter sido um camponês, alguém que tem entendimento sobre o dia a dia de quem precisa ter como sobreviver. Não era de escola profética, não tinha influência junto dos poderosos, mas se posicionava como alguém do povo. Pensando neste contexto, e trazendo-o para nossa atualidade, podemos dizer que existem muitos profetas Amós espalhados pelo mundo. Pessoas que, assim como este profeta, colocam sua voz para ser ouvida, lutando contra poderes políticos e religiosos, para defender seu povo que sofre as injustiças sociais presentes em sua época.

Assim como Amós, somos motivados a anunciar através da nossa fé o programa de esperança que o Senhor reservou a sua criação. O mesmo programa que um dia o próprio Jesus realizou a leitura na sinagoga, como nos relata o evangelista Lucas nos versículos 19 a 20 do capítulo quarto: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos
e proclamar o ano da graça do Senhor
”.

Aí está a centralidade do programa de esperança: mesmo que os problemas são atemporais ou se convertem em meros acontecimentos da história, nossa missão profética está enraizada na propagação da esperança cristã, agindo para a promoção da vida de todos conforme a vontade de Deus.

Em suma, somente através de uma vida que agregue mística e profecia, não por mérito nosso, mas por moção do Senhor através do seu Espírito, poderemos realmente construir uma nova civilização. Somente com a ação do Espírito, que renova a face da Terra, seremos capazes de assim como Amós, Oséias, Jeremias e entre outros profetas, a anunciar a esperança. Com exemplos de profetas de hoje como Irmã Dulce, Dom Oscar Romero, Dom Paulo Evaristo Arns, Padre Júlio Lancelotti devemos estar unidos na caridade para que assim, parafraseando Dom Serafim Fernandes, a esperança possa nascer e florecer.

 

Frei Caio Filipe de Lima Pereira, OSA

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3 set
2020: um ano para pensar

Caro (a) amigo (a), como eu, talvez você também esperasse um ano repleto de coisas boas, aliás, um novo ano é uma oportunidade ímpar para que nós possamos buscar a essência daquilo que nos realiza, para que possamos viver tudo com intensidade, trilhando assim um caminho que nos leve a contemplar a felicidade que nos preenche. 2020 chegou repleto de promessas e expectativas, já no primeiro dia do ano a gente sorria e com gratidão começávamos a escrever uma nova história.

Já nos primeiros meses do ano, éramos aterrorizados com a terrível notícia de que um vírus invisível e muito perigoso se espelhava pelo mundo e logo chegaria até nós. Ao depararmos com os noticiários, ficávamos estarrecidos e nos questionávamos se seria o fim de tudo.

O tempo foi passando e observamos que esse vírus vai além daquilo que ele se apresenta, ele com sua força, levou muita gente querida para longe de nós, afastou famílias, isolou pessoas e encobriu sorrisos. Que ano cruel! Quantas perdas, quanto vazio e quanta angústia. Como viver bem os dias que nos restam desse ano? Como viver bem sem poder visitar, abraçar e confortar aqueles que amamos?

2020 é uma verdadeira escola, um tempo em que nos faz pensar e repensar a nossa própria vida, nossa história, nosso trajeto, nossas escolhas, um tempo difícil que nos faz aprender, ainda que na marra, que a vida tem sentido quando não pensamos só em nós mesmos, mas elevamos nosso pensamento, carinho e atenção para o próximo, não importa quem este seja.

Não é um momento para fazer promessas, mas um momento oportuno para renovar o nosso interior e dar a devida atenção para aquilo que antes passava despercebido diante dos nossos olhos. Este tempo complexo traz para nós uma pergunta fundamental: será que realmente estávamos vivendo bem? Na correria do dia- a- dia, vivíamos tudo como se fosse uma enorme disputa, ganhava quem ajuntava mais coisas, quem saia na frente, quem conseguia alimentar profundamente o seu ego, quem olhava somente pra si, buscando se auto sustentar nos seus anseios e desejos pessoais.

2020 veio para nos chacoalhar, para reafirmar para nós mesmos que a beleza está na simplicidade do cotidiano, no canto de um pássaro, na flor que desabrocha esperando ser contemplada, na mesa comum de uma família, num abraço demorado levando para bem longe a saudade, numa oração que nos leva intimamente a nos conectarmos com Deus, e assim vai, quantas coisas podemos aprender com este ano, quantas realidades podem ser transformadas mediante a nossa conversão.

Este ano é um terreno fértil onde nós podemos plantar a fé e colher a esperança, por isso, é preciso traçar um olhar mais “positivo” sobre o mesmo, um olhar que possa contemplar a verdade, o amor, o compromisso e tudo aquilo que nos faça pessoas melhores, mais generosas, mais solidárias, mais fraternas, pessoas que vivam a humanidade de forma profunda e apaixonada.

A vida, as situações, e os obstáculos exigem muito de nós, somos a todo instante interpelados a dar uma resposta significativa. Certamente esse é o momento exato em que podemos dar uma resposta profunda para este tempo, resposta essa que não deve ser pelo ato da palavra, mas sim pelo ato do testemunho, por isso é tempo de testemunharmos que podemos efetivar um novo jeito de viver, de nos colocarmos diante da realidade, de vivermos permeados pelos melhores sentimentos que habitam em nosso coração.

E quando 2020, terminar? O que faremos?

Faremos o possível para que as lições aprendidas nesse ano possam penetrar a nossa razão e a nossa alma, fazendo com que possamos viver de maneira mais assertiva aquilo que realmente vale a pena.

Frei Danilo Gomes de Almeida, OSA

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1 set
O livro do Deuteronômio e sua história redacional

O Deuteronômio é o quinto livro do Pentateuco e, como que concluindo a Torá, introduz a História Deuteronomista que o segue. Segundo Félix Garcia Lopez, o livro é uma encruzilhada, pois nele se encontram as tradições mais antigas dos quatro primeiros livros da Bíblia e a projeção das tradições mais recentes dos livros seguintes, de Josué a Reis. O seu conteúdo literário, o próprio início do livro já nos indica: “São estas as palavras que Moisés dirigiu a todo Israel, no outro lado do Jordão.” (Dt 1,1). O Deuteronômio configura-se, pois, como o discurso de adeus de Moisés ao povo de Israel, que encerrando a sua marcha pelo deserto, encontra-se às portas da Terra Prometida. Ora, pela pesquisa bíblica, sabe-se que este tempo e lugar e até mesmo a atribuição da redação do livro ao próprio Moisés é um recurso da ficção literária, muito comum entre os escritos bíblicos.[1]

A questão do nome Deuteronômio também desperta, inicialmente, alguma curiosidade. Na Bíblia Hebraica, o título do livro são suas palavras iniciais (São estas as palavras...), mas na versão dos Setenta (LXX), os alexandrinos traduziram a expressão “cópia da Lei” (Dt 17,18) por “segunda Lei” (to deuteronomiom touto), o que posteriormente foi conservado nas traduções latinas (deuteronomium). Para alguns talvez um equívoco, mas para outros a ideia de que a tradução grega quisesse dar ênfase no Deuteronômio como uma atualização do Código da Aliança (Ex 20–23) para novos tempos e situações.[2] Nesse sentido, ao tomarmos o livro do Deuteronômio como uma atualização da antiga legislação, faz-se necessário indagar pela sua origem, autor, época e lugar de redação.

A história de redação do Deuteronômio não é curta. Segundo alguns estudos mais recentes, estima-se que o processo redacional do livro girou em torno de 350 anos: de Jeroboão II até a reforma de Esdras, ou seja, de 750 a.C. a 400 a.C.. Tampouco se pode pensar em um único autor para a obra, mas em vários autores ou grupos sociais que, em momentos históricos distintos, agregaram ao texto seus interesses e contextos. Segundo Shigeyuki Nakanose, o núcleo mais antigo do Deuteronômio que compreende os capítulos de 12 a 26, em sua quase totalidade, tem sua origem no período pré-estatal. O “Protodeuteronômio”, como também ficou conhecido esse material, recebeu muitos acréscimos ao longo do tempo, sendo retrabalhado de maneira muito especial no Norte, por volta do século VIII a.C.[3]

De maneira didática, haja vista a complexidade de se precisar toda a longa história redacional do Livro do Deuteronômio, pode-se destacar seis momentos principais nesse processo, a saber: 1. período pré-estatal; 2. reino do Norte – metade do século VIII a.C.; 3. reforma de Ezequias; 4. reforma de Josias; 5. redação exílica; 6. redação pós-exílica. Na primeira e segunda etapas temos a redação do núcleo mais antigo do Deuteronômio, contendo leis humanitárias e centralizadoras (Dt 12–26) . Na terceira e quarta etapas, marcadas por um período de reformas, o texto foi revisto, acrescentado e reeditado (Dt 4,44–28,68). Por fim, na quinta e sexta etapas aconteceu uma revisão e reedição (Dt 4–28) e uma ampliação (Dt 1–4; 29–34).[4] Vejamos algumas nuances dessa história!

O período pré-estatal, de acordo com Nakanose, foi o solo fecundo para o surgimento das leis mais antigas do Deuteronômio. A sociedade que se formava, organizada em torno das famílias, clãs e tribos, trazia consigo a dura experiência da escravidão, pobreza e miséria, tematizada no êxodo. No entanto, a aliança com o Deus libertador, inspirava agora uma nova organização, mais igualitária, descentralizada, justa, onde todos eram irmãos.[5] É essa realidade que nos leva, de acordo com Storniolo, a encontrar as raízes do Deuteronômio nas antigas alianças, dentre as quais são principais: a do Horeb-Sinai (Dt 5,6-20); a de Moab (1,5; 4,44-46; 28,69; 31,9-13); a de Siquém (Js 24); e a de Guilgal (1Sm 12). A não distinção das mesmas ao longo do texto quer, por sua vez, mostrar a sua continuidade.[6]

Muito provavelmente, as origens do Deuteronômio estão nas festas de renovação dessa aliança com Deus. “A liturgia era a fonte de abastecimento da memória da libertação (Dt 16,1.3.6.12) e do compromisso da aliança.”[7] Os textos, com estruturas muito semelhantes aos antigos tratados orientais de vassalagem, eram guardados nas famílias e nos santuários e, nessas ocasiões eram pregados ao povo. Numa espécie de catequese, a aliança era atualizada e aplicada às novas vivências da comunidade por um grupo de levitas itinerantes. Tais levitas, por não possuírem nenhum ofício litúrgico específico nos santuários, eram desprovidos economicamente e, por vezes, tidos ao lado dos mais pobres e desamparados.[8]

Como vemos, o Deuteronômio é o resultado de um esforço pastoral dos levitas itinerantes, que procuravam tornar concreta na vida prática a aliança que era renovada nos santuários, por ocasião das festas. Como os profetas, eles criticavam as instituições e as relações sociais corrompidas, e anunciavam o caminho para a conversão, a fim de haver fidelidade à aliança. (...) A consciência de serem os legítimos continuadores da palavra de Moisés levou os levitas a atribuírem a própria pregação a Moisés, o que lhes dava autoridade para a crítica e o anúncio que faziam ao povo do seu tempo.[9]

Agora, apesar de encontrarmos os primeiros traços do Deuteronômio nesse período pré-estatal da história de Israel, é no Reino do Norte, por volta de 750 a.C., que o núcleo mais antigo do livro ganhou forma e nasceu. Em Israel, a partir do reinado de Amri (885-874 a.C.) e de seu filho Acab (874-853 a.C.) houve uma consolidação do sistema urbano e a ampliação das relações comerciais com os reinos vizinhos. A política mercantilista então implantada produziu um grande conflito com os camponeses, que por meio dos grupos proféticos de tradição efraimita, reagiram duramente à corte. Com Jeú, que subiu ao trono em 841 a.C., houve, à primeira vista, uma superação desse conflito, pois os sacerdotes e profetas levíticos, liderados por Eliseu, passaram a ser conselheiros do rei (cf. 2Rs 13,14-19). No entanto, com a institucionalização da profecia, “a tradição profética efraimita, portadora do ‘Protodeuteronômio’, entra na corte, que se apropria das leis aí contidas e as coloca em seu favor.”[10]

No reinado de Jeroboão II (783-743 a.C.) Israel alcançou seu apogeu político e econômico. Segundo Donner, “Jeroboão II era rei de um Estado de paz com as outras nações; interiormente reinavam bem-estar e um grau considerável de prosperidade econômica (2Rs 14,23-29).”[11] Todavia, tal riqueza não crescia de forma equitativa, mas apenas nas cidades. “O brilho do reinado de Jeroboão II encobriu só imperfeitamente os males sociais, a corrupção na administração e no exercício da justiça.”[12] Toda essa situação provocou uma grande resistência popular, sobretudo dos grupos proféticos de tradição efraimita, dentre os quais destacaram-se o de Amós e de Oséias. Destarte, foi esta confluência da pregação levítica com os círculos proféticos do Norte e, até mesmo com algumas escolas sapienciais que gerou o núcleo fundamental do Deuteronômio.

A história, todavia, não cessou por aí. Após a morte de Jeroboão II, o Reino do Norte entrou em decadência e a ascensão do Império Assírio tornou-se um perigo iminente. Com a guerra siro-efraimita (734-732 a.C.) e a derrocada da monarquia (722 a.C.), Israel ficou profundamente abalado. Muitos dos que não foram deportados, fugiram para o Reino do Sul, levando consigo suas tradições. Por se tratar de povos irmãos, acredita-se que essas tradições obtiveram boa aceitação em Judá, recebendo novo impulso e elaboração. Ezequias (715-687 a.C.), que reinou em Judá após a queda da Samaria, na tentativa de unificar o Norte e o Sul, iniciou uma significativa reforma política-religiosa para a qual utilizou como justificativa a renovação da aliança com Javé. As leis centralizadoras bem como a centralização do culto foram ao encontro dessa sua política nacionalista.[13]

A reforma de Ezequias, todavia, não foi concluída por conta da invasão de Senaquerib, em 701 a.C.; e a nova edição do Deuteronômio foi escondida no templo, pois, sob Manassés e Amon, a situação em Judá tornou-se muito complicada. Foi somente no reinado de Josias (640-609 a.C.) – num momento em que o poder da Assíria já havia diminuído e a Babilônia ainda não despontava no cenário internacional – que, durante a restauração do templo, se encontrou um tal Livro da Lei (cf. 2Rs 22,8). Segundo Stornilo, “os estudiosos estão de acordo em afirmar que esse livro era o Deuteronômio no seu núcleo central, mais os acréscimos de Ezequias”.[14] A descoberta desse material foi muito importante, pois, a reforma política já iniciada por Josias ganhou nova força, transformando-se em reforma religiosa.

As leis mais radicais sobre centralização (Dt 12,13-19.26-27; 18,6-8 etc) e as leis da guerra para justificar a conquista do Norte por Josias e também recrutar o povo para guerra (Dt 20; 23,10-15) provêm desse período. A apresentação do “livro da lei” foi uma forma eficaz de legitimar a reforma. Outro elemento de justificação da reforma, como no tempo de Ezequias, foi a teologia davídica que proclamava o rei como “filho de Deus”, “pai e defensor dos pobres”. Isto dava a ele o direito de cobrar tributos em espécie e em forma de corveia.[15]

Embora houvesse essa cooptação da tradição deuteronômica em favor da monarquia, é inegável a importância que essa tradição adquiriu para o povo judeu. Afirma-se atualmente, que a partir desse período surgiu a Escola Deuteronomista, a qual, além da elaboração da Obra Histórico-deuteronomista, empreendeu longo trabalho de revisão do Deuteronômio, acrescentando-lhe elementos históricos, teológicos e documentos anexos.[16] Foram os deuteronomistas que durante o Exílio na Babilônia (586-538 a.C.) acrescentaram “textos para explicar o motivo do exílio, as consequências e possibilidades de saída (...) É o povo quem quebrou a aliança, é o povo quem tem que fazer o caminho de volta!”[17] No pós-exílio (cerca de 400 a.C.), foram dados os últimos ajustes no texto a fim de que o mesmo, compondo o Pentateuco, fizesse também a ponte com a História Deuteronomista. “O conjunto do livro quer ser um apelo à conversão ao Deus oficial, à sua lei e à unidade do povo eleito, Israel, na sociedade teocrática de Neemias e Esdras.”[18]

Como observamos acima, a longa história redacional do Deuteronômio foi marcada por diferentes circunstâncias e contextos. Os textos, ora foram forjados numa ótica subversiva, ora retrabalhados numa ótica superversiva.[19] Todavia, em linhas gerais, é possível afirmar que o Deuteronômio configurou-se como um “programa idealista, sem dúvida, mas com boa dose de realismo. Reflexão teológica com base sociológica. Projeto de reforma religiosa, com fortes implicações políticas e sociais, por mudança sociorreligiosa.”[20]


Fr. Tailer Douglas Ferreira, OSA

Secretariado de Animação Vocacional e Juvenil e membro da Equipe de Formação da Província. 
Contato: frei.tailer@sicbh.com.br

REFERÊNCIAS:

[1] Cf. LOPEZ, Félix Garcia. O Deuteronômio: uma lei pregada. São Paulo: Edições Paulinas, 1992, p. 8-11.
[2] Cf. STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro do Deuteronômio: escolher a vida ou a morte. 4. ed. São Paulo: Paulus, 2004, p. 8.
[3] Cf. NAKANOSE, Shigeyuki. Para entender o livro do Deuteronômio: uma lei a favor da vida? RIBLA, Petrópolis, n. 23, p. 176, 1996/1.
[4] Ibidem, p. 177.
[5] Ibidem, p. 177-178.
[6] Cf. STORNIOLO, 2004, p. 23-24.
[7] NAKANOSE, 1996, p. 178.
[8] Cf. STORNIOLO, 2004, p. 24-25.
[9] Ibidem, p. 25.
[10] NAKANOSE, 1996, p. 180.
[11] DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: da época da divisão do reino até Alexandre Magno. 2. ed. Vol. 2. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1997, p. 328.
[12] Ibidem, p. 328.
[13] Cf. NAKANOSE, 1996, p. 181-182.
[14] STORNIOLO, 2004, p. 29.
[15]  NAKANOSE, 1996, p. 183.
[16] Cf. STORNIOLO, 2004, p. 29-30.
[17] NAKANOSE, 1996, p.184.
[18] Ibidem, p. 185.
[19] Cf. STORNIOLO, 2004, p. 31.
[20] LOPEZ, 1992, p. 12.
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18 ago
Hospitalidade pode ser pensado em lugar de prática educativa não escolar?

No campo do saber da Pedagogia Social se multiplica a quantidade de reflexões sobre as práticas educativas não escolares, suas potencialidades oriundas das práticas concretas dos educadores sociais, e, os seus alcances dentro do contexto educacional brasileiro. A leitura da Pedagogia da Hospitalidade, proposta pela pesquisadora portuguesa Isabel Baptista, nos abre a possibilidade de pensar esse conceito – hospitalidade – como elementos de formação docente para organização de práticas educativas não escolares, especialmente na área da Educação dos Direitos Humanos.

A partir de suas reflexões, a hospitalidade pode ser definida como um local privilegiado de encontro interpessoal, marcado por uma atitude de acolhimento em relação ao outro, onde não se impõe ação direta do eu sobre o outro. Ao contrário, o outro é início e o fim da ação realizada neste encontro. As necessidades e demandas dos sujeitos, que se apresentam no campo da alteridade, devem ser apontadas como fundantes da nossa ação e a reciprocidade, vivida nesse processo, é o que dá sustento a um campo pedagógico de encontro entre “outros” que desejam, mutuamente, estarem um na presença do outro e, por isso, facilitam a sua própria vivência educacional, independente de quem, aparentemente, se faz responsável pelo processo.

Assim, esse conceito nos tira do senso comum de entendermos a hospitalidade como acolhimento. A alteridade, ou seja, a vivência subjetiva de um outro dos nossos laços sociais é o que se transforma no cerne de qualquer ponderação acadêmica sobre hospitalidade na educação. (cf. BAPTISTA, 2012, p.46)

Ao se trazer o outro em sua radical diferença para as relações sociais, seja na educação, seja em quaisquer outros processo de institucionalização, a hospitalidade se configura não como o simples ato de acolher, mas de se responsabilizar pela existência do outro e a manutenção de sua diferença como parte integrante da minha existência e da sustentação da dimensão antropológica e identitária com a qual todos somos compostos, enquanto seres humanos.

À luz de novos paradigmas que façam crescer esse campo de saber, principalmente, na formação docente inicial, legitima-se tanto as diversas maneiras de atuação dos pedagogos e licenciados nos ambientes não escolares quanto reflexões que construam novos espaços pedagógicos de exercício do ensino-aprendizado focados não no espaço físico, nos resultados formais e no cânon da legislação educacional.

A Educação Social pode – e deve ser pensada – para além dos processos convencionais de produção de conhecimento e de relações de ensino-aprendizagem. Ao valorizar as distintas pedagogias, como é o caso da hospitalidade, propõem-se novas funcionalidades às ponderações antigas e promove aos pesquisadores a experiência da hospitalidade como reflexão sobre o saber-fazer educacional em um contexto social que valoriza a relação social estabelecido junto ao outro do processo educativo. (cf. BAPTISTA, 2016, p. 7)

A hospitalidade pode ser um lugar de escuta na educação à medida em que a mesma se propõe a construir laços sociais na articulação centrado no Outro que, em nossa reflexão, se descortina em uma relação dinâmica e estrutural entre o ‘outro-educativo’ e o ‘outro-formativo’. Essa realidade se constitui parte relevante do processo de compreensão de que a hospitalidade é uma forma de educação uma vez que “os laços comunitários que sustentam as diferentes práticas de cidadania não são tão naturais como a tradição nos ensinou a pensar, mas sim construídos. São laços humanos, e nessa condição frágeis e carentes de vigilância permanente”. (cf. BAPTISTA, 2005, p.70)

Como lugar de escuta, a hospitalidade se apresenta como um modo de relação positiva entre os sujeitos sociais caracterizado pelo acolhimento mútuo que não se encerra em si mesmo. Ao contrário, se abre a uma necessária aprendizagem recíproca e pela corresponsabilidade cívica. Assim, ao exercer a escuta como espaço de hospitalidade, reconhece-se que todos os atores sociais possuem um conhecimento relevante para o desenvolvimento social dos seus territórios e das comunidades locais. O educador que encontra na hospitalidade o seu local de escuta pedagógica admite que nenhum dos sujeitos sociais detém sozinho, a verdade absoluta e quanto mais visões obtivermos da realidade poderemos usufruir de relações mais solidárias e positivas entre os seres humanos. Acolher, partilhar e discutir sobre todos os pontos de vistas possíveis é o exercício da hospitalidade como lugar de escuta pedagógica. (cf. BAPTISTA, 2015, p. 10)

Enfim, a Pedagogia da Hospitalidade se encontra em aberta e inconclusa. Todos somos convocados a ocupá-la como lugar de escuta em todos os seus sentidos: educacional, social, profissional, cultural, político, psíquico, entre outros. A partir desse local, de escuta e hospitalidade, poderemos continuar pensando em como ser humano sendo o outro-da-relação capaz de exercer o ofício de educar pelo simples fato de existir para um outro que divide comigo a responsabilidade, o direito e o dever de ‘ser-estar-fazer’ nesse mundo.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

Artigo publicado no site Pensar a Educação Em Pauta – Um Jornal para a Educação Brasileira, em 14/08/2020.

https://cutt.ly/1fwvlBp

REFERÊNCIAS:

BAPTISTA, Isabel. Dar rosto ao Futuro: a educação como compromisso ético. Porto: Profedições, 2005.
BAPTISTA, Isabel. Ética e educação social interpelações de contemporaneidade. In.: SIPS – Pedagogía Social. Revista Interuniversitaria, n. 19, p. 37-49, 2012.
BAPTISTA, Isabel. Laços sociais – por uma epistemologia da hospitalidade. Caxias do Sul: EDUCS, 2015.
BAPTISTA, Isabel. Para uma fundamentação antropológica e ética da educação: a escola como lugar de hospitalidade. EDUCA – International Catholic Journal of Education, n. 2, p. 203-214, 2016.

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11 ago
Santa Mônica e o acompanhamento vocacional - Algumas provocações iluminadoras

Santa Mônica é popularmente conhecida como a mulher das lágrimas, derramadas ao longo de vários anos, pela conversão do esposo e do filho, Agostinho. É comum a vermos representada segurando um lenço nas mãos. Da sua vida conhecemos o que nos relatou Santo Agostinho, sobretudo em suas Confissões. Nasceu em Tagaste, cidade norte-africana, na atual Argélia, por volta do ano 331. A educação humana e, talvez também a cristã, recebeu de uma antiga escrava da família, desenvolvendo marcas firmes de caráter. Supõe-se que tenha recebido o batismo bem cedo, contraindo, quando chegou à idade núbil e conforme a escolha se seus pais, matrimônio com o pagão Patrício. Teve dois filhos, Agostinho e Navígio, e uma filha, Perpétua. Viúva aos 38 anos de idade, morreu anos mais tarde, em 387, em Óstia, um porto marítimo de Roma, antes de retornar com o filho convertido para a África.

Sem dúvida, dada a relação de Mônica com Agostinho transparecida em seus escritos, há quem a considere como uma mãe superprotetora ou encontre nessa relação vestígios de certo complexo de Édipo. Não obstante, interessa-nos perceber na vida dessa cristã fervorosa do século IV, momentos e atitudes que possam provocar e iluminar a nós, animadores e animadoras vocacionais, em nossa missão de acompanhar as juventudes, inquietas como o jovem Agostinho, na busca por um lugar no mundo, pela Felicidade.

Santo Agostinho, no livro III das Confissões, ao contar-nos sobre seu encontro com a obra Hortênsio, de Cícero, encontro que despertou nele o amor à sabedoria, ressalva: “Mas, no meio de tanto fervor, havia uma circunstância que me mortificava: a ausência de Cristo no livro. Este nome, ‘por tua misericórdia, Senhor’, o nome do meu Salvador, do teu Filho, meu coração, o havia sorvido, com o leite materno quando ainda pequenino, e o conservava no meu íntimo.” (Confissões III,4,8). É sabido que durante a amamentação a mãe comunica não só a riqueza nutritiva e salutar do leite, mas também o seu próprio ser... o leite é um pouco a mãe, seus sentimentos, suas experiências, sua vida. Não foi diferente com Mônica que, como boa mãe, soube nutrir seu pequeno Augusto não só com o alimento físico, mas também com o alimento espiritual. Com sabedoria insistente, comunicou ao filho a experiência que ela própria fazia, plantou em seu coração o amor à Cristo, ao seu Evangelho. Não seria essa também uma tarefa nossa enquanto animadores e animadoras vocacionais? Que alimento temos oferecido às nossas juventudes? Será que temos feito uma experiência autêntica com Senhor que, ao ser comunicada, é tão intensa, tão verdadeira, tão convincente, a ponto de manter-se conservada no íntimo dos corações?

Outro episódio da vida de Santa Mônica a nos provocar trata-se de um sonho que ela teve com o filho. Assim nos relata Agostinho: “Nesse sonho, viu-se de pé sobre uma prancha de madeira, e um jovem luminoso e alegre lhe foi sorridente ao encontro, enquanto ela estava triste e amargurada. Perguntou-lhes os motivos da tristeza e das lágrimas cotidianas, não por curiosidade, mas para instruí-la, como acontece muitas vezes. E respondendo ela que chorava a minha perdição, ele a confortou, aconselhando-lhe que prestasse atenção e visse que onde ela se encontrava aí estava também eu.” (Confissões III,11,19). Mônica manteve-se firme ao longo de toda sua vida, jamais desistindo do acompanhamento, por que não vocacional, de seu filho. E embora Agostinho ousasse interpretar esse sonho a seu favor, afirmando que a mãe seria como ele, naquele momento maniqueu, Mônica firmemente insistiu que pelo sonho foi-lhe dito “onde estás, aí estará também ele.” Será que não nos falta essa persistência de Mônica em nossos acompanhamentos vocacionais? Será que não nos faltam lágrimas fecundas como as dessa mãe? Será que deixamos nos envolver e comprometer o suficiente com nossas juventudes?

Por fim, não poderíamos deixar passar, talvez uma das cenas mais bonitas da vida de Mônica. Diz-nos Agostinho: “Ao aproximar-se o dia de sua morte – dia que só tu conhecias e nós ignorávamos – sucedeu, creio que por tua vontade e de modo misterioso como costumas fazer, que ela e eu nos encontrássemos sozinhos, apoiados a uma janela, cuja vista dava para o jardim interno da casa onde morávamos, em Óstia Tiberina. (...) Elevando-nos com o mais ardente amor ao próprio Bem, percorremos gradualmente todas as coisas corporais até o céu (...). E subíamos ainda mais ao interior de nós mesmos, meditando, celebrando e admirando as suas obras. E chegamos ao íntimo de nossas almas. Indo além, atingimos a região da inesgotável abundância, (...) onde a vida é a própria Sabedoria, pela qual foram criadas todas as coisas que existiram, existem e hão de existir, pois a Sabedoria mesma não é criada (...). Enquanto assim falávamos, ávidos de alcançar a Sabedoria, chegamos apenas a tocá-la num supremo ímpeto do nosso coração (...).” (Confissões IX,10,23-24). O êxtase de Óstia, como ficou conhecido este episódio, encerra, para Mônica, o árduo acompanhamento vocacional realizado com seu filho. Convertido à fé católica, já convicto do seu lugar no mundo, Agostinho está agora pronto para seguir respondendo a sua vocação. A união dos dois corações neste instante de contemplação de si mesmos e de Deus, confirma-lhes que o discernimento foi bem feito. Não carecem nossos acompanhamentos de experiências assim? Não de meros arroubamentos alienados, mas de momentos profundos que chamamos de experiências de Deus, que são capazes de mudar os rumos da vida da gente ou mesmo nos confirmar no caminho trilhado até ali? Será que o itinerário vocacional que temos proposto às nossas juventudes tem lhes possibilitado esse movimento de fora para dentro e de dentro para o alto?

Que a Mulher de tantas lágrimas continue a inspirar nossa missão de animadores e animadoras vocacionais, fazendo-nos nunca desistir daqueles que o Senhor nos confiou!

 

Fr. Tailer Douglas Ferreira, OSA
Secretariado de Animação Vocacional e Juvenil e membro da Equipe de Formação da Província. 
Contato: frei.tailer@sicbh.com.br

Artigo publicado na Revista Rogate - Animação Vocacional - www.rogate.org.br

 

REFERÊNCIAS:

FALBO, Giovanni. Santa Mônica: modelo de vida familiar. São Paulo: Paulinas, 2009.
SANTO AGOSTINHO. Confissões. 23. ed. São Paulo: Paulus, 2011. 
VIZCAÍNO, Pio de Luis. Santa Mônica: uma mãe que se converte. FABRA: Petrópolis, 2003.

 

 

 

 

 

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3 ago
Jovem: vocação e compromisso

O tema “vocação” desperta muito o interesse dos jovens e das jovens hoje. A juventude é tempo de tomada de decisões, de projeções futuras que começam a ganhar seus contornos já no presente. Que faculdade cursar? Que experiências de trabalho e intercâmbios realizar? A que grupos se aproximar? Como construir um projeto de vida?

Entre tantas questões surge também a pergunta sobre o sentido da vida, sobre o próprio lugar no mundo, na história, o desejo de fazer a diferença. Coloca-se a interrogação por quê e para que faço o que faço ou deveria fazer? E disso, quem eu sou? Apenas mais um na multidão? E jovens de fé ainda acrescentam: o que Deus quer de mim? Qual sua vontade? Mas corre-se o risco de não saber “fazer perguntas, as existenciais, que dão gosto à vida, pois se contentam com respostas superficiais de informações racionais” (CENCINI, 1999, P. 12). Entrando nesta lógica da superficialidade, a juventude fica à deriva, sem aprofundar o sentido de sua existência e sem descobrir a beleza da própria vocação, ou seja, o projeto de amor de Deus pensado para cada pessoa tendo em vista sua felicidade e a construção do Reino de Deus. Vocação é dom que se faz compromisso e exige a capacidade de silenciar para escutar e a disposição de colocar-se a serviço assumindo um compromisso de amor a Deus e aos irmãos.

  1. A beleza da vocação

O Papa Francisco nos convida a refletir na “chamada à santidade que o Senhor faz a cada um de nós, a chamada que dirige também a ti: sede santos, porque Eu sou santo” (Gex 10). A vocação é o chamado a ser santo, ser santa, ou seja, a perfeição no amor, na amizade como Senhor, “cada um por seu caminho” para se chegar a ser plenamente humano, ou seja, a ter “o mesmo sentir e pensar que o Cristo Jesus” (Fl 2,5). Ser vocacionado é ser alvo do amor preferencial de Deus que “gasta tempo” com cada um, traçando um projeto de vida que enche a pessoa de sentido e a faz feliz. Isso é maravilhoso e enche o coração de alegria e de gratidão.

A vocação é um convite, dom de Deus que toma a iniciativa e espera uma decisão livre que envolve o ser, o sentir, o pensar, o agir. Responder exige coragem e disposição para assumir o caminho de santidade que, para além de um sistema de regras morais a serem vividas, é uma atitude do coração que está constantemente voltado para Deus, por isso, capaz de amar como Ele ama e sente-se impelido a servir os irmãos e irmãs.

É importante também lembrar que mais do que “fazer algo” numa vocação específica (casado, religioso ou religiosa, padre, consagrado), o convite do Senhor é para “estar com Ele” para depois ser enviado/a em missão (Mc 3,14). Como bem nos lembra o Papa Francisco na Cristo Vive, n. 250,

(…) Jesus quer de cada jovem é, antes de tudo, a sua amizade. Este é o discernimento fundamental. No diálogo do Senhor ressuscitado com o seu amigo Simão Pedro, a pergunta importante era: «Simão, filho de João, tu amas-Me?» (Jo 21, 16). Por outras palavras: Amas-Me como amigo? A missão que Pedro recebe de cuidar das ovelhas e cordeiros de Jesus estará sempre ligada com este amor gratuito, este amor de amigo.

Para cultivar a amizade com o Senhor é necessária atitude de escuta, que pressupõe silêncio e tempo. O cultivo da espiritualidade, que engloba a vida sacramental, práticas devocionais e a vida em comunidade, é caminho que predispõe o coração para ouvir o que Deus quer de cada pessoa. O tempo para a oração pessoal, sobretudo a partir da Palavra de Deus, torna o jovem e a jovem cada vez mais íntimos de Jesus e vai modelando o seu jeito de pensar e agir de forma que os gestos de Jesus também começam a traduzir-se nos próprios gestos de bondade, de solidariedade de amor aos mais fracos daquele que escuta o Mestre.

Da escuta do Senhor brota o desejo de atuar como Ele no hoje da história. Mas o jovem e a jovem não podem ficar apenas no desejo. É preciso a decisão de “sair do sofá”, como dizia o Papa Francisco na JMJ em Cracóvia, e colocar-se a serviço. Desta forma, a vocação é também um compromisso de amor, de doação. Vivendo a disponibilidade em servir na família, na comunidade eclesial e na sociedade cada pessoa pode perceber suas capacidades e seus dons pessoais. Na escuta e na disponibilidade em servir, o Senhor revela seu projeto, a vocação específica de cada jovem: ser consagrado, religiosa, padre, pai, mãe ou mesmo um profissional atuando na sociedade, mas com os “olhos fixos em Jesus” (Hb 12,2) e naqueles que Ele ama, os mais vulneráveis.

  1. Pastoral Juvenil Vocacional

A Exortação Cristo Vive e todo o processo sinodal chamam a atenção para o discernimento e para a importância do acompanhamento no processo vocacional (CV 242). Sendo a santidade a meta, é necessário que cada jovem possa conhecer as diferentes formas de alcançá-la e discernir, num sério caminho de amadurecimento humano e espiritual, qual é a forma de realizar o projeto de Deus em sua vida.

Além de conhecer possibilidades, é necessário escutar a Deus que chama e responder, como já afirmado. Escuta e disponibilidade se aprendem. É exercício diário. A todo serviço de evangelização da juventude cabe considerar este tempo de decisões e criar espaços para desenvolver a capacidade de ouvir e doar-se. Colaborar com a superação da superficialidade e o fomento de perguntas existenciais que dão espaço para o chamado, cultivar a espiritualidade, criar o “hábito” de escutar a Deus que se revela, na Palavra, na história, na vida de cada pessoa, são tarefas de toda ação pastoral com jovens, comprometida com a formação integral, que contempla também a dimensão vocacional, ou seja, o projeto pessoal de vida confrontado com o projeto do amor de Deus.

A experiência missionária é exercício de saída de si que cria novas disposições para responder. Ser missionária, também é próprio da Pastoral Juvenil, pois “a missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; (…) Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo” (CV 254). Toda pastoral juvenil é vocacional e missionária. Para isso, gera possibilidades e experiências, não aventuras, missionárias que levem a juventude a vivenciar a missão de Cristo, “anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos presos, e, ao cego, a recuperação da vista…” (Lc 4, 18), de ir ao encontro da “ovelha perdida” e estar a sempre à escuta da vontade do Pai tornando-se capaz de optar pelo seguimento de Jesus.

Conclusão

A vocação é uma história de amor. Histórias de amor se constroem com o encantamento pelo outro e por gestos concretos de renúncia e doação. É também fruto da liberdade de cada pessoa em escolher ser feliz e fazer o outro feliz. Assim também a vocação é relação de encantamento por Deus, de desejo e busca do seu amor infinito e que se traduz em gestos concretos de doação de si mesmo. O projeto de Deus realizado na própria vida e na sociedade é a meta que só é atingida na medida em que cultivamos a amizade com Ele e vamos aprendendo dEle as formas de viver, amar e servir. A escuta e a disponibilidade no serviço nos coloca em sintonia com Deus de forma a podermos perceber onde e como assumir e realizar a própria vocação.

Assim, vocação é dom e compromisso assumido de caminhar com Jesus, fazendo como Ele, a vontade do Pai, deixando-se guiar pelo Espírito que gera vida e impulsiona para a missão. A Pastoral Juvenil contribui como farol a apontar a direção em que o Senhor se manifesta e força que impulsiona para o serviço, acompanha e encoraja na resposta à Sua chamada.


Por Ir. Valéria Leal, assessora interna da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude – CEPJ

Fonte: https://jovensconectados.org.br

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28 jul
A vida comum como construção pessoal e coletiva

A vida religiosa se apresenta como um modelo de vida escolhido por homens e mulheres ao longo da história como possibilidade de ser e estar no mundo. Diferente do que o senso comum possa determinar a vida religiosa não deve ser entendida como uma fuga do mundo ou das frustrações pessoais, mas como uma escolha consciente de viver a realidade concreta em forma específi ca: ser capaz de estar no mundo dedicando-se, na presença de Deus, a vida aos irmãos e as suas necessidades espirituais e temporais.

Agostinho de Hipona nos recorda que esta vida religiosa é uma construção e deve ser organizada a partir de um processo em duas vias: a interioridade e a vida comum. Estes dois espaços exigem daquele que se dispõe a este estilo de vida uma dedicação ao desejo de Deus e a caridade como meta de vida, uma vez que “Deus louva os irmãos que vivem em concórdia e na caridade assim como os irmãos louvam a Deus com seu estilo de vida.” (Santo Agostinho in Comentário ao Salmos 132, 12).

No começo do caminhar da vida religiosa, o conhecimento interior é primordial para os que estão fazendo a experiência da vida comum. Santo Agostinho mesmo nos alerta que “Se um não conhecem a si mesmo aqueles que desejam entrar na vida comum, como será difícil que os demais o conheçam!” (Santo Agostinho in Comentário ao Salmo 99, 10) Ou seja, ao entrarmos na vida religiosa se faz necessário o desejo de um autoconhecimento que promova no aspirante o desejo de descobrir as suas qualidades e suas potencialidades, como também, as suas fraquezas e necessidades emocionais, intelectuais e espirituais para que possa, não somente convertê-las, mas aceitá-las como parte da constituição do seu ser humano. Somente desta forma, poderemos nos apresentar aos demais como realmente somos. Assim seremos capazes de construir vínculos verdadeiros de empatia e de amizade com todos aqueles que nos relacionamos dentro e fora de nossas comunidades religiosas.

Outro aspecto importante, intuído por Santo Agostinho, é que as comunidades religiosas são locais da construção da santidade e, por isto, não estão livres das desavenças e dos problemas comuns do mundo. “Uma das causas dos erros para os homens que abraçam a vida religiosa é a louvarem como se não houvesse difi culdade nenhuma.” (Santo Agostinho in Carta 75, 18). O reconhecimento da vida religiosa como espaço de construção pessoal e comunitária de um estilo de vida é importante para todo aquele que deseja participar dela entenda os seus limites e suas possibilidades de desenvolvimento. Nela encontraremos pessoas com um venerável caminho e testemunho, mas que continuamente são desafi ados a permanecer nesta seara, enfrentando todos os tipos de difi culdades emocionais para continuarem fi rmes no propósito de comunhão com Deus e os irmãos. Não somos seres isolados do mundo e de sua cultura. Somos seres históricos e sociais, portanto a vida religiosa participa ativamente deste processo e se constrói a partir desta realidade. É sobre a esperança de continuar o processo construção pessoal e comunitária que investimos na vida religiosa, pois como o próprio Agostinho fala “ainda que verdadeiramente me entristeça as defi ciências da vida comum, me consolam, sobretudo, as suas muitas virtudes.” (Santo Agostinho in Carta 78, 9).

“Alimenta-me a esperança de que Tu, que me inspirou a fazer as promessas, me ajudarás em cumpri-las.” (Santo Agostinho in comentário ao Salmo 132, 13). Este deve ser o sentimento que deve nutrir todo aquele que se coloca em uma comunidade religiosa. A vida comum com o próximo é uma construção pessoal e coletiva. Na medida em que vamos nos descobrindo, em nossas potencialidades e limitações, nos abrimos aos irmãos de nossas comunidades. Assim nos tornamos empáticos ao nosso próximo e solidários com as necessidades socio-históricas da humanidade. É a partir deste movimento que verdadeiramente sentiremos a doçura da caridade que faz os irmãos viverem unidos. (Cf. salmo 132.)

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA. 

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6 jul
Vocação: chamado de Deus para todos

Para entendermos a Vocação, devemos saber que o significado etimológico dessa palavra é “chamado” (vocare, do latim), o que também está em consonância com o sentido de Igreja, que também é “chamado” (ek -klesia, kaleo, do grego). Logo, a vocação é sempre um chamado, mas um chamado que se direciona para a comunidade, para o bem comum, o que também salienta bastante o Papa Francisco, e a Teologia Latino-americana.

Percebemos que, biblicamente, o chamado sempre aconteceu em uma realidade concreta. Moisés vivenciou um contexto específico, com uma história conturbada: filho de hebreus, na iminência de perseguição, criado junto ao faraó, estrangeiro (Ex 1, 22-2, 25). Nesse meio foi chamado por Deus para libertar seu povo (Ex 3, 1-12). Judite e Ester, mulheres, viúvas, sem papel de destaque em sua época, também mostram seu chamado feminino particular para fazer a diferença no mundo (Rt 1,14-17; Jt 8,1-36). Jonas mostra que o chamado e a ação de Deus superam as vontades humanas (Jn 1,1-3; 4,1-2). Oséias viu, no contexto do seu casamento, o amor de Deus pela humanidade, apesar de seus erros (Os 3, 1; 4, 1-3; 14,2-9). Maria, não só aceita o chamado de Deus, como também nos abre caminho para o verdadeiro discipulado de Cristo: ela O acompanha desde antes do Seu nascimento (Lc 1,26-38), até Sua morte (Jo 19,25-27), e depois (At 1,12-14).

O Código de Direito Canônico também prescreve a importância de cada fiel na construção do Reino (Cânones. 204-207). Como batizados, somos responsáveis por ser profetas, reis e sacerdotes, ou seja, por levar o amor e a justiça divina onde pessoas sejam oprimidas e marginalizadas, a exemplo dos personagens bíblicos que citamos acima e, sobretudo, de Jesus Cristo, edificando Seu Reino na fé, na esperança e na caridade (1Ts 5,8).

Assim, podemos dizer que o chamado de Deus, a vocação é para todos os fiéis e todos os homens de boa vontade que escutam no mais íntimo de si uma voz que chama a dar de si algo a mais, como alguém que encontra um tesouro e vende todas as outras riquezas para possuir somente ele, pois vale a pena (Mt 13, 44-52). Cada um tem seu chamado, que descobre, não fugindo da realidade em que se vive, mas ouvindo o que ela quer dizer, discernindo o que ela espera, bem como os profetas, Jesus, e muitos outros santos homens e mulheres fizeram.

Por fim, o que falar da vocação agostiniana? Tendo por base, primeiro, o Concílio Vaticano II, buscamos seguir mais fielmente Cristo, ser um braço da Igreja no mundo, seguindo o carisma de nosso Pai Agostinho, atentos aos sinais dos tempos em que vivemos (PC 1219- 1224), não nos esquecendo de nossa proposta mais profunda e segunda base, as Constituições da Ordem de Santo Agostinho: vivermos nossa interioridade através da oração e dos estudos; nossa fraternidade por meio da vida comum; e o apostolado, tanto e sobretudo dentro da comunidade, quanto nos serviços pastorais (Constituições II, 16-39).

Frei Davison Bertuce, OSA

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20 jun
Quando meus desejos estão diante de Deus

O exercício espiritual que realizamos como agostinianos, religiosos e leigos se encontra no pressuposto de que Deus vive no mais íntimo de cada um de nós e que, por um esforço pessoal, podemos encontrá-Lo e deixáLo brilhar na realidade de nossa vida cotidiana. Deus é uma força criadora que permanece em sua criatura, potencializando que ela possa exercer o sentimento mais fundamental – e o mais contraditório – dos seres humanos: o desejo.

Ao lermos as Confissões de Santo Agostinho, o desejo pode ser uma das chaves de leitura de toda essa bela herança espiritual deixada por nosso Pai espiritual. Para esse homem de Hipona, o desejo desordenado o afastou da bela verdade manifesta em Deus na humanidade. Ao voltar para si mesmo, percebe que o seu desejo deveria ser orientado a Deus, princípio e fim de todas as coisas que existem em sua vida. “Senhor, ponho diante de ti meu coração, minha memória e meus desejos, tu que me guias pelos caminhos da providência já me lançava em meu rosto os meus erros, a fim de que eu os enxergasse e os detestasse.” Confissões de Santo Agostinho, Livro V, 11.

O desejo e a conversão se encontram em sintonia no caminho que leva à construção de uma conversão em Deus. Nesse processo, todos somos convidados a passar por um reconhecimento dos erros à exaustão para que, arrependidos pelos nossos atos e pensamentos, possamos ser capazes de orientar o nosso desejo a Deus e, assim, darmos sentido ao cumprimento da vontade de Deus no meio da humanidade.

Nesse processo, Deus se utiliza de sentimentos humanos para que possamos nos voltar para Ele. A inquietude é uma dessas ferramentas que Deus permite que nós tenhamos para que, corretamente direcionados a Deus, possamos encontrá-Lo como premissa importante para o nosso crescimento pessoal. Como dizem as Confissões de Santo Agostinho, no Livro VII, 12: “Com um aguilhão secreto provocavas em mim a inquietude, para que eu me mantivesse insatisfeito, até que te tornasses uma certeza ao meu olhar interior”. Deus, em sua lógica da misericórdia, permite que passemos por algumas situações em nossas vidas que são próprias da fragilidade humana. 

Ou seja, a realidade cotidiana entre os nossos pares pode nos angustiar ou nos fazer sofrer com determinadas circunstâncias que atingem os nossos desejos pessoais. Contudo, a presença de Deus é a garantia de que não vamos sucumbir frente a cada um desses movimentos. “Senhor, conduz os pequenos na justiça e ensina os seus caminhos aos mansos, já que conhece bem a nossa miséria e a nossa dor, e nos perdoa todos os pecados.” Confissões de Santo Agostinho, Livro VII, 14. O desejo e a inquietude são relações importantes a serem estabelecidas como parte do nosso processo de conversão, pessoal e comunitária, que nos leve a uma vivência plena da graça divina dentro de uma realidade social que clama uma postura de misericórdia, justiça e solidariedade.

“Em tua presença, Senhor, estão todos os meus anseios.” Confissões de Santo Agostinho Livro VII, 11. Quando os nossos desejos se encontram na presença de Deus, as nossas inquietudes podem se transformar em caminhos de mudança importante para que possamos nos constituir como seres humanos engajados com o pressuposto de que o exercício espiritual agostiniano, por mais que seja uma trilha que nos leva à interioridade, tem o seu reflexo, e concretude, nas relações interpessoais estabelecidas neste mundo.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
freiarthur@ymail.com

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11 jun
Corpus Christi: a festa da comunhão e da esperança

A festa de “Corpus Christi”, celebra solenemente o mistério da Eucaristia que é o Sacramento do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta é celebrada sempre em uma quinta-feira (após a oitava de Pentecostes, mais precisamente depois da festa da Santíssima Trindade), fazendo alusão à quinta-feira santa, dia em que Jesus instituiu este sacramento salutar.

A celebração de Corpus Christi tem origem no Séc. XIII, em 1243, na Cidade de Liège na Bélgica. Uma freira chamada Juliana de Cornion que depois foi canonizada, teria tido visões de Jesus Cristo demonstrando-lhe o desejo que a Eucaristia fosse celebrada com destaque. Vale também ressaltar o milagre eucarístico com o padre da Boemia, na Alemanha, que tinha dúvidas a respeito da veracidade da transubstanciação. Durante uma viagem da cidade de Praga a Roma, ao celebrar a santa missa na tumba de Santa Cristina, em Bolsena na Itália, no momento da consagração, viu sangue escorrer da Hóstia Consagrada, banhando desta forma as alfaias litúrgicas e também a pedra do altar. Impressionado com o fato, o sacerdote dirigiu-se até a cidade de Orvieto, onde residia o Papa Urbano IV, que logo enviou a Bolsena o Bispo Giacomo, para atestar o ocorrido e levar até ele o linho ensanguentado. Desta forma, a relíquia venerada foi levada em procissão a Orvieto em 19 de junho de 1264. O Papa então mostrou a relíquia ao povo.

O Santo Padre motivado pelas visões de Santa Juliana, e por este fato, fez com que a festa de Corpus Christi se estendesse por toda a Igreja por meio da Bula “Transiturus de hoc mundo”, em 11 de Agosto de 1264. Assim sendo, Santo Tomás de Aquino ficou encarregado de preparar as leituras e os textos litúrgicos que, até hoje, são usados na celebração. Em 1274, acontece a procissão com a Hóstia Consagrada conduzida em um ostensório. Contudo, na época barroca, esta procissão se torna um grande cortejo de ação de graças.

Tradicionalmente, muitas famílias e comunidades, se unem para preparar os tapetes pelas ruas cuja procissão com o Santíssimo Sacramento irá percorrer, é um gesto profundamente bonito e especial. Assim, a festa de Corpus Christi se torna um movimento de comunhão e participação, revelando o grande sentido de estarmos unidos ao mistério eucarístico que se revela no amor e na colaboração mútua.

Corpus Christi, reacende em nós a esperança, de que juntos podemos lutar por um mundo melhor, mais humano, mais fraterno e justo. Através da oração e da ação, podemos efetivar a vontade plena de Jesus que é a vida abundante para todos.

Neste ano, somos chamados a celebrar esta festa de um modo diferente, em casa, no seio de nossas famílias. Isto, de forma alguma tira a beleza desta festa, pois podemos acolher o Corpo e o Sangue de Jesus através da vivência do diálogo, do amor, da compreensão, do respeito, do perdão e de tudo aquilo que faz com que nosso espaço comum seja lugar da presença amorosa Dele.

Neste tempo desafiador, nossas famílias são agraciadas com esta oportunidade de celebrar Corpus Christi, contemplando a face de Jesus através daqueles que se fazem mais próximos. Um novo tempo se descortina diante de nós, tempo este que nos faz enxergar com mais dedicação antes algumas coisas que passavam despercebidas diante dos nossos sentidos, e que agora exige a nossa atenção e cuidado.

A mesa de nossas casas se torna então um lugar sagrado, onde podemos tomar a refeição comum permeada pela graça de estarmos unidos, cuidando uns dos outros, seguindo o exemplo de Jesus. A comunhão com o Senhor desperta em nós o desejo de sermos homens e mulheres de fé, que colocam em prática a Boa Nova que gera esperança e força em tempos de medo e desespero.

O desejo de Jesus é habitar no coração e na vida daqueles que se dispõe a construir seu reino de amor. Com isso, efetivamente, cada um precisa tomar a decisão de acolher a presença eucarística do Cristo através da vivência em família. Certamente o Senhor está em primeiro lugar no interior de todos os que se esforçam para fazer a comunhão acontecer de verdade.

Que a festa de Corpus Christi nos aproxime mais ainda de Jesus e dos irmãos, para que de fato a vida seja celebrada com entusiasmo e esta esteja sempre em primeiro lugar.



Frei Danilo Gomes de Almeida, OSA
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Assunção- São Félix do Araguaia (MT)
Publicado no site https://piasdiscipulas.org.br , em 11 de junho de 2020.

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2 jun
A ação inseparável do Deus Uno e Trino

ASPECTOS DA DOUTRINA TRINITÁRIA DE SANTO AGOSTINHO.[1]

             No domingo após a Solenidade de Pentecostes, a Igreja nos convida a celebrar a Solenidade da Santíssima Trindade. Na ocasião muitos fazem referência a Santo Agostinho, seja pelo seu Tratado sobre a Trindade, seja pela conhecida estória do diálogo com a criança na praia. Neste texto propomos, a partir da Introdução Geral às obras de Santo Agostinho escrita pelo Padre Agostino Trapè, uma exposição clara e simples sobre aspectos fundamentais da doutrina trinitária de Santo Agostinho. Esperamos, com isso, ampliar o acesso à profundidade de seu pensamento e favorecer, cada vez mais, uma reta compreensão da fé cristã. Eis o texto:

             Agostinho empenhou-se no estudo do mistério trinitário por três motivos: filosófico, teológico-pastoral e místico. Estudou a Trindade em si (Trindade imanente) e a Trindade na história da salvação (Trindade econômica), estabelecendo entre uma e outra consideração uma profunda causalidade circular: da Trindade econômica à Trindade imanente, e desta àquela.

            Para entender o estudo bíblico que Santo Agostinho empreende nos primeiros quatro livros do Tratado sobre a Trindade (De Trinitate), precisamos recordar seu ponto de partida que é aquele da profissão de fé inicial. Esta profissão de fé não é composta sob o esquema tripartido do símbolo batismal, que Santo Agostinho comentou diversas vezes, como por exemplo na obra De fide et symbolo, mas sob o esquema do símbolo Quicumque[2], do qual recorda ou antecipa algumas expressões.

            Antes de tudo, Agostinho enuncia a unidade e a igualdade da Trindade; afirma, depois, a distinção das Pessoas divinas; recorda que não a Trindade, mas somente o Filho se encarnou, como somente o Pai fez ouvir sua voz no Tabor e somente o Espírito Santo desceu sobre os discípulos no dia de Pentecostes; e confessa, por fim, que as operações da Trindade são inseparáveis como também é são inseparáveis as Pessoas divinas. Evidentemente, nessa profissão de fé, são dois os pontos de partida: a unidade e igualdade de natureza da Trindade, e a inseparabilidade das ações ad extra.

 

  1.                    Unidade e Igualdade do Deus Trindade.

 

            Ao expor e defender a unidade e igualdade da Trindade, Agostinho se opõe ao subordinacionismo e, da mesma forma, evita a absurda imaginação que supõe uma quarternidade em Deus (heresias comuns em sua época). Ao contrário, ele afirma a consubstancialidade, a coeternidade, e a perfeita igualdade entre as três Pessoas divinas. Mas esta unidade e igualdade, que está sempre em primeiro plano na perspectiva agostiniana, parece ser contradita em alguns textos da Escritura, os quais dizem que o Filho é inferior ao Pai, ou atribuem ao Pai prerrogativas superiores ao Filho e ao Espírito Santo. Para responder a esta dificuldade o Bispo de Hipona estuda os textos da Escritura e formula algumas regras para entendê-los no contexto da Escritura em si.

 1)      A primeira regra pode-se formular assim: em si, o texto bíblico se refere ao único e verdadeiro Deus, que é Trindade, mesmo que ela não seja mencionada; portanto, eles devem ser entendidos não como falando de uma só Pessoa, mas de todas. Como por exemplo em 1Tm 6, 16 (“Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém”); e em Rm 11, 33-36 (“Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”).

 2)      A segunda, resguarda a “economia” divina na manifestação da Trindade. A Escritura diz algumas coisas da singularidade de uma das Pessoas divinas separadamente das outras para indicar e para recordar que Deus é Trindade. Como por exemplo em Jo 14, 15-24 (“Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós. Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós. Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis. Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós...”).

 3)      A terceira regra é a mais importante, porque tem frequente aplicação. Diz respeito à Pessoa de Cristo. É chamada “canônica” porque é proposta comumente pelos intérpretes da Escritura. Ei-la: o testemunho bíblico que diz respeito a Cristo se deve entender alguns sobre o Cristo homem e outros sobre o Cristo Deus, ou, para usar a expressão paulina, alguns sobre Cristo segundo a forma e servo e outros sobre Cristo segundo a forma de Deus.

 

  1.                 A Trindade age inseparavelmente.

             O segundo princípio que determina a perspectiva segundo a qual Santo Agostinho considera o mistério trinitário, é constituído pela inseparável ação ad extra da Trindade. A unidade do ser deve comportar a unidade de ação.  Mas como o primeiro princípio, anteriormente mencionado, também este parece ser contradito por alguns textos da Escritura. Não obstante isto, Santo Agostinho o defende, o explica e o aplica. Segundo ele, a Trindade operou inseparavelmente: na criação, nas teofanias do Antigo Testamento e nas teofanias do Novo Testamento.

            Na criação “o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só princípio, como são um só criador e um só Senhor” (De Trinitate 5, 14,15). Isso é tão verdadeiro que à formula do símbolo batismal que diz: Cremos em Deus Pai onipotente criador do céu e da terra, Santo Agostinho propõe esta outra: Cremos no Pai, e no Filho e no Espírito Santo um só Deus... Pai e Filho e Espírito Santo unidos na mesma substância, Deus criador, Trindade onipotente (cf. De Trinitate 9, 1,1. 4, 21, 30).

            Desta mesma forma, Santo Agostinho explicita as teofanias do Novo Testamento, especialmente aquela manifesta no batismo no Jordão (cf. Mc 1, 9-11). “Toda Trindade operou: a voz do Pai, o corpo do Filho e a pomba do Espírito Santo, apesar dessas três coisas referirem-se a cada uma das Pessoas distintas” (De Trinitate 4, 21, 30).

            Esta afirmação, a ação inseparável da Trindade, suscita uma séria dificuldade. Por exemplo: como podemos dizer que só o Filho se encarnou se a Encarnação é obra da toda Trindade? Agostinho responde: a natureza humana de Cristo é obra da Trindade, mas pertence só à Pessoa do Filho. Portanto, só o Filho se encarnou. O mesmo vale para a voz do Pai e para a pomba ou as línguas de fogo do Espírito Santo, com a diferença que a natureza humana do Filho ascendeu ao céu e está, para sempre, na unidade da Pessoa do Verbo, enquanto que a voz e a pomba e as línguas de fogo não formam unidade com a Pessoa do Pai e do Espírito Santo. Não estão unidas, mas são usadas, provisoriamente, por um particular serviço: a ação do Pai e do Espírito Santo na história da salvação.

            Não termina aqui a reflexão de Santo Agostinho sobre este princípio fundamental da teologia Trinitária. Ele trata de estudá-lo e ilustrá-lo comparando o modo como opera em nós a memória, a inteligência e a vontade (cf. De Trinitate 4, 21, 30; Sermo 52; Epístola 169, 5-6). São três faculdades que nomeamos separadamente, mas que operam inseparavelmente. As referências apresentadas neste texto, contudo, são perfeitamente adequadas para ilustrar e instigar o aprofundamento da teologia trinitária de Santo Agostinho.

________________________________________

[1] Tradução de parte (p. 161-162; 166-167) da Introdução Geral às Obras de Santo Agostinho, escrita por Agostino Trapè, publicada pela Città Nuova Editrice em 2006. Tradutor: Fr. Jeferson Felipe da Cruz, OSA.

[2] Denziger-Hünermann, em Compêndio dos Símbolos, Definições e Declarações de Fé e Moral, Paulinas, Edições Loyola, São Paulo 2007, na página 40, chama este símbolo de “pseudo-atanasiano“, e esclarece que “entre os estudiosos predomina a convicção de que o autor deste Símbolo não é Atanásio de Alexandria, mas deve ser procurado entre os teólogos do Ocidente. A maioria dos manuscritos mais antigos alega como autor Atanásio, outros, o Papa Atanásio I. Entre os possíveis compositores deste Símbolo são mencionados particularmente: Hilário de Poitiers, 367; Ambrósio de Milão, 397; Nicetas de Remesiana, 414; Honorato de Arles., 429; Vicente de Lérins, antes de 450; Fulgêncio Ruspe, 532; Cesário de Arles, 543; Venâncio Fortunato, 601. Prevalece a opinião de que este Símbolo tenha surgido, entre 430 e 500, no sul da Gália, possivelmente na região de Arles, por obra de autor desconhecido. No decorrer do tempo este Símbolo adquiriu tal autoridade, no Ocidente como no Oriente, que na Idade Média chegou a ser equiparado aos Símbolos apostólico e niceno a ser usado na liturgia”. Apesar da polêmica sobre a autoria, as verdades expostas no símbolo era conhecidas e aceitas pela Igreja por se tratar de “um majestoso e único monumento da fé imutável de toda a igreja quanto aos grandes mistérios da divindade, da Trindade de pessoas em um só Deus e da dualidade de naturezas de um único Cristo.”

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28 mai
O Espírito e Cristo no comentário ao quarto Evangelho e no tratado Trinitário de Santo Agostinho

O ESPÍRITO E CRISTO NO COMENTÁRIO AO QUARTO EVANGELHO E NO TRATADO TRINITÁRIO DE SANTO AGOSTINHO.[1]

O texto do Evangelho:

“Soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22).

  1.       A explicação no Tratado sobre o Evangelho de João.

            O último texto do Evangelho de João no qual se menciona o Espírito Santo descreve a realização de sua doação por Jesus ressuscitado aos discípulos. A revelação acontece no contexto da aparição do Senhor aos seus discípulos na tarde da Páscoa. Depois de lhes dar a paz, de haver mostrado os sinais da paixão no seu corpo glorioso, e conferir a eles a continuidade da missão recebida do Pai, Jesus concede o dom do Espírito Santo com o ato simbólico do sopro.

            No comentário evangélico, Agostinho cita ou faz alusão a esta cena seis vezes, em diferentes momentos, desenvolvendo uma extensa exegese sobre esse texto. Ele o comenta, por exemplo, no seguinte ponto:

“ ‘Soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo’ (20,22). Soprando quer significar que o Espírito Santo é, não somente do Pai, mas também seu. ‘A quem perdoardes os pecados eles serão perdoados, a quem o retiveres eles serão retidos’ (20,23). A caridade, que por meio do Espírito Santo é derramada em nosso coração, perdoa os pecados daqueles que fazem parte da comunidade eclesial; e retém, ao contrário, o pecado de quem não faz parte. É por isso que Jesus concede o poder de perdoar ou de reter o pecado só depois de haver dito: ‘Recebei o Espírito Santo’.” (Tractatus 121, 4).

            Para o exegeta, são dois os elementos que se destacam. O primeiro diz respeito ao Espírito em si, em seu relacionamento com Deus; o sopro de Jesus mostra que o Espírito Santo pertence não só ao Pai mas também ao Filho, e aqui aparece claramente a dignidade divina de Jesus. O outro elemento diz respeito ao Espírito em relação aos homens. Sendo a caridade divina, dele provém a remissão dos pecados.

“Porque, não cremos que o Espírito Santo procede também do Filho já que é o Espírito também do Filho? Se de fato não procedesse também do Filho, Cristo não poderia, depois da ressurreição, doar aos seus discípulos seu sopro dizendo: ‘Recebei o Espírito Santo’ (20, 22). Que outro significado pode ter este sopro se não que o Espírito Santo procede também dele?” (Tractatus 99,6).

            A situação pessoal do Espírito com o Filho aparece ao longo da exposição do último discurso de Jesus sobre o Paráclito. A relação do Espírito com o Filho vem aqui contemplada, especificada e explicitada com a palavra “procede” que contém, para o intérprete teólogo, a ideia de origem. O gesto do sopro é, para Agostinho, uma demonstração muito clara da derivação pessoal intradivina do Espírito do Filho. 

interpretação acrescenta um novo argumento ao que o Autor disse sobre o tema da processão[2] do Espírito também do Pai.

            O texto ainda aparece no desenvolvimento do comentário ao primeiro dos discursos sobre o Paráclito. O intérprete está explicando que o Espírito pode ser doado em diferente medida; uma primeira vez para quem ainda não o recebeu e, em seguida, sempre com maior abundância, a quem já está enriquecido com sua presença e ação.  

“Não uma vez, mas duas vezes o Senhor concedeu aos apóstolos, de modo manifesto, o dom do Espírito Santo. [...] Talvez esse dom tenha sido concedido duas vezes porque duplo é o preceito do amor: o amor a Deus e ao próximo; e para enfatizar que o amor depende do Espírito Santo” (Tractatus, 74, 2).

            As duas grandes efusões do Espírito (cf. Jo 20, 22. At 2, 1-11) simbolizando o duplo preceito do amor reafirma e evidencia a ligação causal do Espírito com relação à caridade para com Deus e para com o próximo. A mesma ideia da dupla doação do Espírito da parte de Jesus, uma depois da ressurreição e outra depois da ascensão ao céu, vem exposta comentando a explicação do evangelista à profecia de Jesus proclamada na festa dos tabernáculos (cf. Jo 7). Relatamos o trecho da exegese no qual aparece o referido texto.

“Depois da sua ressurreição, na primeira vez que aparece a seus discípulos, Jesus diz a eles: ‘Recebei o Espírito Santo’ (20, 22). Porque como bem disse o evangelista: ‘Ainda não tinha sido dado o Espírito por que Jesus ainda não tinha sido glorificado’ (Jo 7, 39). E soprou sobre eles. Ele com seu sopro animou os membros do corpo; mostrando com esse gesto que queria criá-los do pó da terra e libertá-los das obras da terra. Foi então depois da sua ressurreição, chamada pelo evangelista de glorificação, que o Senhor doou pela primeira vez aos seus discípulos o Espírito Santo” (Tractatus, 32, 6).

            A este trecho exegético segue a evocação da narrativa de Pentecostes em Atos 2, 1-11. O paralelismo explicitado pelo exegeta entre o ato do sopro divino sobre o primeiro homem para chamá-lo do pó da terra à vida natural, e o ato do sopro de Jesus sobre seus discípulos para ressuscitá-los à nova vida, mostra a profunda intenção reveladora da Escritura, em cujo texto joanino é voluntariamente alusiva àquela do Gênesis. Todos os comentadores modernos ao explicar a narrativa da doação do Espírito no dia da ressurreição, recordam o relato da formação do primeiro homem. A exegese contemporânea segue a mesma linha daquela antiga, proposta por Agostinho.

            No comentário evangélico há outras duas alusões à narrativa pascal da efusão do Espírito. Uma destaca, como feito da presença do Espírito, a infusão de uma disposição e apreço pela as realidades divinas nos discípulos (cf. Tractatus 103, 1). A outra é, simplesmente, um breve compendio que serve como introdução à pesca milagrosa (cf. Tractatus 122, 2).

            A exegese de Agostinho sobre Jo 20, 22 - texto que é denominado “o pentecostes joanino”, oferece um rico ensinamento pneumatológico. Na doação do Espírito por Cristo ressuscitado vem revelada a processão de origem do Espírito do Filho e vem revelada a 

relação do Espírito com o homem crente, para o qual é a fonte da caridade para com Deus e para com o próximo. É a fonte da caridade que concede o perdão dos pecados. Sopro do Senhor ressuscitado sobre o homem morto por causa do pecado, o Espírito Santo os anima da vida divina, como o sopro criador de Deus tinha dado ao primeiro homem a vida natural.

  1.       A explicação do “De Trinitate”.

            O texto pneumatológico final do Evangelho de João vem explicitamente citado duas vezes no tratado “De Trinitate” e em ambas as vezes vem interpretado como uma revelação da procedência do Espírito Santo também do Filho.

            Para o fim do quarto livro do Tratado o Autor coloca o tema da missão do Espírito ensinando que, sendo enviado no tempo para a salvação do homem, revela e manifesta a relação eterna entre as pessoas divinas. O Espírito procede do Pai e do Filho.

“Não podemos dizer que o Espírito Santo não proceda também do Filho. Não à toa o mesmo Espírito Santo é chamado Espírito do Pai e do Filho. Não vejo o que mais quereria dizer Cristo quando soprando sobre os discípulos disse: ‘Recebei o Espírito Santo’ (20, 22), porque aquele sopro corpóreo, que procede do corpo como uma sensação de contato físico não era a substância do Espírito Santo, mas a representação, através de um símbolo adequado, que o Espírito Santo não procede só do Pai, mas também do Filho. Quem será tão insensato de afirmar que um é o Espírito que Cristo deu com seu sopro e outro o que mandou depois de sua ascensão? Um único Espírito, de fato, é o Espírito de Deus. Espírito do Pai e do Filho, o Espírito Santo” (De Trinitate 4, 20, 29).

            Aqui também a doação do Espírito através do sopro de Jesus é a acoplada à efusão do dia de Pentecostes. A historicidade salvífica destes dois atos é, para o exegeta, o reflexo temporal da ontologia divina eterna.

            A última parte do livro décimo quinto do Tratado é dedicada ao aprofundamento final do conceito da processão divina. Depois de haver adotado o texto bíblico tirado de São Paulo e dos Sinóticos, que indicam a pertença e relatividade do Espírito Santo ao Pai e o Filho, o Autor propõe a processão do Espírito do Filho comentando o ato do sopro do Ressuscitado.

“Que procede de ambos nos ensina os seguintes passos: o Filho mesmo disse que o Espírito ‘procede do Pai’ (Jo 15, 26); e ressuscitado dos mortos, aparecendo aos discípulos, soprou e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’ (Jo 20,22) para mostrar que o Espírito procede também dele. O Espírito Santo é, ainda, a ‘força que saiu dele e curou a todos’ (Lc 6,19)”. (De Trinitate 15, 16, 45).

            Do quarto ao décimo quinto livro do Tratado, a partir dos quais essas referidas exegeses são tomadas, a interpretação de Jo 20, 22 continua a mesma: o Espírito procede do Filho porque foi enviado por Ele; de modo que podemos estabelecer uma equivalência na hermenêutica de nosso Autor: pelo Espírito ser soprado é procedente; proceder é receber a comunicação do ser e da vida divina em igualdade de natureza e de dignidade.

            No tratado “De Trinitate” aparece ainda uma alusão a Jo 20, 22 sem citação explicita, na segunda parte do livro décimo terceiro, onde se ensina que o Cristo conduz os homens à verdadeira beatitude mediante a obra da redenção. Aqui, Agostinho acena o dom do Espírito Santo como sendo primeiro prometido e depois concedido.

            A comparação entre o modo de explicar, no comentário evangélico e no tratado trinitário, os dois últimos textos joaninos quem contêm o termo “Espírito” não revela diferença, se não pelo fato de que a exposição global no comentário é mais extensa que no tratado teológico. Nas duas obras, pela expressão “deu o Espírito”, o exegeta dá como significado, a morte natural de Jesus e sua libertação e voluntária determinação; pela expressão “soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” dá como significado a processão eterna do Espírito também do Filho e a relação da promessa anunciada na festa dos tabernáculos.

            Ao comentar esta última expressão, no comentário evangélico, Agostinho propõe o paralelismo com o sopro divino na criação do homem, que deu ao primeiro homem a vida natural, assim, o sopro do Espírito de Jesus adquire o valor de uma nova criação, de comunicação da vida espiritual, da vida imortal, da vida divina.

            Esta identidade de exegese é sinal indubitável, tanto da unidade do pensamento do Autor, como também da singular afinidade entre essas duas grandes obras que são fruto da plena maturidade do pensamento e da teologia do Bispo de Hipona.

 

Comentário do Tradutor

            Para bem entender estes traços da peumatologia agostiniana, tão bem apresentados por Giuseppe Ferraro, é preciso considerar o marco histórico no qual Agostinho escreveu suas obras. O tema do Espírito Santo, em sua época, estava envolvido na malha de polêmicas. Sobretudo atingido por heresias. Quando, ao comentar os textos bíblicos, Agostinho defende a procedência do Espírito tanto do Pai quanto do Filho (Filioque), está claramente defendendo a fé católica aprovada no I Concílio de Constantinopla (381).

            Para nós, a pneumatologia agostiniana pode assegurar, além desta defesa clara e distinta de nossa doutrina, um profundo caminho de vivência da fé, especialmente pelos seguintes aspectos:

  •          O Espírito é amor. Manifesta-se de duas maneiras diferentes, justamente, porque duplo é o mandamento do amor. Possui o Espírito quem ama, a Deus e ao próximo.
  •          O Espírito ao ser soprado dota os discípulos de uma missão temporal: a caridade, que opera no perdão e na reconciliação.
  •          O Espírito Santo procede também do Filho, porque é seu próprio Espírito. Ao soprá-lo sobre nós, Cristo nos comunica sua vida. Faz-nos renascer. A conclusão é fática: se o Espírito dele habita em nós, devemos, então, viver como Ele viveu.

 

 

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[1] Esta é a tradução livre de uma parte da obra Lo Spirito e Cristo nel comento al Quarto Vangelo e nel Trattato Trinitario di Sant’Agostino, de Giuseppe Ferraro lançada em 1997 pela Libreria Editrice Vaticana. Tradutor: Fr. Jeferson Felipe Gomes da Silva Cruz, OSA.

[2] Relativo à procedência, ao que procede. “O Filho provém do Pai, e o Espírito Santo provém de ambos, no mistério da Santíssima Trindade”.

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27 mai
O Espírito Santo e o amor fraterno em Santo Agostinho

A festa de Pentecostes faz-nos pensar a importância do Deus amor na realidade humana. É a descida do Espírito Santo que uniu os apóstolos, e o povo que se encontravam em Jerusalém pela linguagem do amor (At 2,1-11). Todos se entendiam pelo milagre das línguas, pois ouviam dos apóstolos a mensagem de unidade na diversidade, pelo amor no Espírito Santo. Vejamos em Santo Agostinho esta verdade de fé, pelo qual o Espírito Santo deu o poder do milagre das línguas e que hoje dá o mesmo poder se nós amarmos o irmão e a irmã que moram junto de nós e no mundo.

Nos primeiros tempos do cristianismo, Santo Agostinho afirmou que o Espírito Santo desceu sobre os fieis, os seguidores de Jesus Cristo, de modo que falaram em várias línguas que não tinham aprendido, assim como o Espírito Santo dava a eles de pronunciar (At 2,4). Eram sinais milagrosos naquele tempo e ao mesmo tempo oportunos para a Igreja nascente. Era necessário que em todas as línguas tivesse o conhecimento do Espírito Santo, porque o evangelho de Jesus, de Deus deveria alcançar todas as línguas existentes mo mundo inteiro. Aquele sinal foi dado e passou e não se repetir mais. Hoje, quando se impõe as mãos, esperamos que as pessoas possam falar em línguas? Alguém poderia afirmar que não recebeu o Espírito Santo, porque se o tivesse recebido falariam em línguas? A prova da presença do Espírito Santo, segundo Santo Agostinho em nós e no mundo, não é mais dada por aqueles sinais, mas no intimo de cada um de nós. O Bispo de Hipona quer levar a pessoa a interrogar o seu coração: se ele ama o irmão, o Espírito Santo permanece nele.

É preciso examinar e colocar à prova a pessoa mesma diante de Deus, ver se houver nela a paz e a unidade, o amor à Igreja difundida em todo o mundo. O Bispo convida os cristãos a amar os seus vizinhos mas também a muitos de nosso irmãos e irmãos que nós não os vemos mas que estão unidos conosco n unidade do Espírito Santo. Ainda que esses não se encontram junto a nós, estamos no mesmo corpo e temos no céu uma única cabeça, Jesus Cristo. Pela caridade nós estamos todos unidos ao Senhor no Espírito Santo. Observemos os nossos olhos nos quais vão na mesma  direção, também se isso ocorre de lugares diferentes.

Santo Agostinho convida os fieis a amarem os irmãos e irmãs, para se achegar até Deus, porque outros tem a mesma aspiração que a nossa, porque todos buscam a luz da verdade, o Espírito Santo. Desta forma é preciso ver se a pessoa recebeu o Espírito Santo, o que deveria fazer? Interrogar o seu coração, para não correr o perigo de ter o sacramento, mas não o seu efeito. Se a pessoa interroga o seu coração e lá encontrar a caridade para o irmão, a irmã, a pessoa pode ficar tranqüila, o Espírito Santo mora naquela pessoa, pois o Espírito Santo mora em nós como num templo, também pelo fato de que o amor de Deus foi derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5).

Santo Agostinho realça a importância da caridade, como pedra preciosa, descoberta e comprada por aquele negociante do evangelho, do qual vendeu tudo o que tinha para adquirir aquela pérola preciosa (Mt 13,45-46). A caridade é aquela pedra preciosa, não tendo nenhuma alegria que possa preencher o vazio da existência, mas uma vez possuída, a caridade, tudo é possível na vida. Se agora a pessoa vê pela fé, um dia verá diretamente. Se agora amamos o Senhor que não vemos, o que será quando o veremos diretamente? A caridade fraterna leva as pessoas até Deus, ao Espírito Santo que deseja habitar em cada um de nós. Se de fato amarmos o irmão que vemos, poderemos ver Deus, porque veremos a caridade mesma, e Deus habita na caridade, pelo dom do Espírito Santo que mora em nós.

*Artigo de Dom Vital Corbellini (Bispo de Marabá – PA)
Publicado no portal da CNBB: https://cutt.ly/UyDWZVb

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25 mai
Uma só alma e um só coração: a comunidade enquanto valor em Santo Agostinho

1. Pra início de conversa... um olhar à nossa volta

No início da Idade Moderna, com o surgimento e desenvolvimento do capitalismo, a consequente ascensão da burguesia e a revolução científica do século XVII, o projeto racional moderno, anunciado por René Descartes, perseguido e remodelado por tantos outros que lhe sucederam, teve na descoberta do indivíduo seu ponto culminante e, de fato, a afirmação do eu foi sua grande novidade. Assim, com uma subjetividade construída sobre as noções de interioridade e reflexão sobre si mesma, o homem moderno foi moldando suas relações e o mundo a partir dessa tradição ocidental do individualismo. Todavia, na mesma, o indivíduo manifestava “sua autonomia justamente pela criação do vínculo social, do poder político, da lei civil”[1], realidade que contrasta ao observável nos tempos atuais, ditos pós-modernos, onde o autocentramento do sujeito atinge níveis tão elevados que qualquer vinculação a um compromisso ou a um projeto coletivo ou futuro vê-se fadado ao fracasso.

O mundo pós-moderno é, pois, marcado por uma crescente fragmentação, provisoriedade e imediatez da realização dos desejos. A gramática existencial que estruturava as relações do homem com o tempo, o espaço, o corpo, o outro e a sociedade não atingem o mesmo nível de legitimação de outrora. As mudanças se dão muito ligeiramente, os referenciais são vários e a verdade multifacetada. Os tempos são líquidos e complexos. Segundo Joel Birman, o autocentramento do sujeito – conjugado de maneira paradoxal com o valor da exterioridade – somado à inexistência da história e à negação da alteridade é a marca fundamental de uma cultura do narcisismo.  O indivíduo preocupa-se tanto com o próprio eu que é capaz das coisas mais ridículas para elevar-se suntuosamente perante as outras pessoas.  Tamanha estetização do eu, por consequência, gera uma cultura da imagem, em que o aparecer social do indivíduo é forjadamente manipulado e influenciado pelas mídias. O sujeito, apresentado pelos meios de comunicação de massa, deve ser polido até atingir a aparência ideal para se apresentar na cena do social. Uma hegemonia da aparência, amparada pela brilhantina eletrônica, se instaura negando a singularidade, o sujeito da diferença. É a cultura do espetáculo,[2] que na tão recorrente demanda por chamar a atenção para si, faz da exibição, a exaltação do eu o fundamento da existência e o molde plasmador das individualidades. Na sociedade do espetáculo a exigência da performance é a lei maior. E assim como na cultura da imagem, o ser e o parecer se confundem e até se identificam. Instaurado um discurso narcísico do espetáculo, as hierarquias entre verdadeiro e falso, original e cópias se invertem e o indivíduo, autocentrado, paradoxalmente, agrega exterioridade, perdendo as ricas contribuições da interioridade.

Diante desse mal já tão alastrado e arraigado em nós, será possível encontrar um caminho alternativo e mais saudável? Para Santo Agostinho, a vida comunitária é, sem dúvida, o caminho. Mas essa proposta ainda tem algum valor?           

2. Santo Agostinho e suas experiências comunitárias: um ideal a partir da vida[3]

Santo Agostinho sempre prezou pela companhia dos amigos, estar junto, con-viver.

 Outras coisas havia em meus amigos que me atraíam e cativavam: conversar e rir juntos; servir-nos uns aos outros;
ler em comum bons livros; fazer pilhérias e elogios recíprocos; discordar algumas vezes sem rancores nem querelas – como
discorda um homem de si mesmo – e, na rara discordância, amadurecer o frequente consenso, ensinar-lhes e deles aprender, sentir saudades dos ausentes e recebê-los com alegria ao voltarem. Com esses gestos e outros semelhantes que brotam do coração dos que amam
e são amados, que se manifestam pelo rosto, pela boca, pelos olhos e por outras mil agradáveis expressões, como faz o fogo com os combustíveis, se fundem as almas, e de muitas se faz uma só. (Confissões IV,8,13)

Essa vida compartilhada tornou-se, por sua vez, o modus vivendi para aqueles que desejavam seguir seus passos. O projeto monacal agostiniano, daí decorrente, diferenciava-se do modelo eremítico, isolado, e assumindo características cenobíticas, ou seja, comunitárias. Um breve olhar sobre essa sua trajetória poderá nos ajudar a compreender melhor essa busca de Deus em comunidade.

Ainda em Milão, logo após a conversão, Agostinho pensou viver com os amigos em comunidade, na busca da sabedoria divina. (Cf. Confissões VI,14,24). Essa experiência, ainda muito incipiente, não obteve muito sucesso. No entanto, sem desistir desse projeto, mais tarde, durante nove meses, de agosto de 386 a abril de 387, Agostinho fez sua preparação para o batismo em Cassissíaco, próximo a Milão, junto com sua Mãe, o filho Adeodato, o irmão Navígio e mais alguns parente e amigos, vivendo um ritmo de vida monástica: oração, trabalho, estudo, leitura da Bíblia, etc.

Em 388, de volta a Tagaste, Agostinho se retira com o filho e amigos para um sítio fora da cidade e aí passa três anos em ritmo de vida religiosa, sem, contudo, deixar de fazer pastoral, sobretudo escrevendo para os de fora. Mudando-se para Hipona, em 391, é feito presbítero. Todavia, se entende e vive como religioso, ao ponto de abrir uma comunidade para leigos, tendo sempre como ideal a Comunidade de Jerusalém segundo Atos.

Em 395/396, Agostinho é feito bispo e, para não atrapalhar o ritmo habitual da comunidade, muda-se para a residência episcopal, formando ali uma nova comunidade com seus padres e ministros. Para Agostinho não há contradição entre Vida Religiosa e serviço apostólico: “O amor da verdade busca o ócio santo, mas as exigências da caridade aceitam o negócio justo.” (A Cidade de Deus XIX,19)

            Veja-se que Agostinho sempre fez questão de estar rodeado pelos amigos, de viver em uma comunidade. A comunhão, ideal dos primeiros cristãos, tornou-se seu projeto de vida, tornou-se também seu ideal. Não obstante, é a partir dele que Agostinho fundamentou a sua Regra de vida, seguida até hoje por inúmeras famílias religiosas. Debruçando-se sobre ela poderemos, sem dúvida, recolher algumas luzes para o enfrentamento do mal do individualismo, redescobrindo a beleza da vida em comum.

 

3. A “regra de ouro” agostiniana... redescobrindo o valor da comunidade

A Regra para os servos de Deus, escrita por Santo Agostinho por volta do ano 397, se comparado a outras regras de vida, é um texto relativamente simples, contendo apenas 49 parágrafos, distribuídos em 8 capítulos. Não nos interessa aqui aprofundá-la em seus pormenores, o que nos exigiria grande esforço hermenêutico, senão perceber o caminho que a mesma propõe e que nos ajuda a entender o valor da comunidade para Santo Agostinho.

Na Regra, Santo Agostinho parte de um princípio fundamental, o amor: “Antes de tudo, irmãos caríssimos, amai a Deus e depois ao próximo, pois estes são os principais mandamentos que nos foram dados” (Regra 1). Essa deveria ser a maior regra de vida para um agostiniano, para um cristão, para a humanidade. Perceba-se que Santo Agostinho faz ecoar o duplo mandamento, preconizado pelo Evangelho, insistindo conquanto que, “É começando pelo segundo amor que se chega ao primeiro amor” (Sermão 265,9). E ainda: “O amor de Deus é o primeiro que nos é prescrito, o amor do próximo é o primeiro que se deve praticar” (Com. a Jo 17,8).

A partir desse núcleo fundamental descortina-se a finalidade da vida em comum: “Em primeiro lugar – já que com este fim vos haveis congregado em comunidade – vivei unânimes em casa e tende uma só alma e um só coração orientados para Deus” (Regra 3). Importa para Agostinho que aqueles que abraçaram esse projeto persigam com radicalidade, ou seja, no mais profundo de si, a união de almas e corações, o “monos”, que longe de anular as singularidades, as pressupõe e valoriza. “A comunidade não é um reino homogêneo onde todos participam de uma mesma natureza e uma mesma ideia. É um âmbito de singularidades que se ajudam mutuamente na árdua tarefa de existir.”[4]

A prova concreta dessa valorização das singularidades se observa pela via proposta por Santo Agostinho para a vida em comum: a comunhão de bens e a distribuição proporcional. Na comunidade agostiniana cada um oferece o que tem e recebe o necessário: “E não possuais nada como próprio, mas tende tudo em comum, e que o Superior distribua a cada um de vós o alimento e a roupa, não igualmente a todos, pois nem todos sois da mesma compleição, mas a cada qual segundo o necessitar...” (Regra 4). Essa base material, resguardada por aquela de caráter espiritual, a humildade, é, sem dúvida o eixo central em torno do qual deve se pautar a vida em comunidade e a busca de cada um pela sua própria perfeição:

Queres ser grande? Começa por ser humilde. Planejas levantar o edifício de tua própria perfeição?
Começa por escavar os alicerces de tua humildade. E quanto mais alto o edifício, tanto mais profundo os alicerces.
Vê bem que os edifícios sobem quando os alicerces são aprofundados. De tal forma que a grandeza torna-se pequena
e a pequenez grande. (Sermão 69,1,2)

Daí decorre a atitude fundamental dos que descobriram o valor da comunidade: honrar a Deus uns nos outros, do qual fomos feitos templos (Cf. Regra 9). Ora, vivendo em uma sociedade que apregoa um individualismo competitivo e consumista, parece-nos atual o conselho-pro-vocação de Agostinho:

Os que querem fazer-se morada do Senhor não devem alegrar-se de seus próprios bens, mas do bem comum.
Há muitos, todavia, que amam seus próprios bens, procura seu próprio proveito, gozam de seu próprio
poder e ambicionam seus próprios interesses.
Como poderão esses ter um só coração e uma só alma? (In ps. 131,5)

E nós, como poderemos ter um só coração e uma só alma?

 

Fr. Tailer Douglas Ferreira, OSA

________________________________________________

[1] MACDOWELL, João Augusto A. A. Ética e política: urgência e limites. Síntese, Belo Horizonte, n. 48, p. 14, 1990.

[2] Cf. DEBORD, Guy. La Société du spectacle. Paris: Gallimard, 1967.

[3] Cf. BOFF, Clodovis. A Regra de Santo Agostinho: apresentação e comentários de Clodovis Boff. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 18-20.

[4] ROSELLÓ, Francesc Torralba. El valor de la comunidade a luz del espíritu agustiniano. In: ROSELLÓ, Francesc Torralba; GUAITA, Carmen; VIVES, Narcís. El valor de lo comunitário em la escuela agostiniana. Madrid: Federación Agustiniana Española, p. 31. (Tradução nossa)

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5 mai
Aspectos eclesiológicos da mariologia agostiniana

A piedade católica costuma dedicar o mês de maio à Virgem Maria. No hemisfério norte, o louvor mariano mistura-se à exuberância e ao perfume da primavera. Já aqui, no hemisfério sul, a recordação da Virgem Mãe confunde-se com a rutilante e calorosa luz do outono. Independente da estação, uma coisa é certa: em maio, os cristãos católicos cedem ao afeto e o mundo canta Maria.

            Sem sombra de dúvida, conforme demonstrou o fundador da psicologia analítica Carl Gustav Jung (1875 – 1961), a veneração católica à Mãe de Jesus é sinal de saúde psíquica.[1] Contudo, não faltam exemplos, corre-se sempre o risco de supervalorizar a figura de Maria e, com isso, incorrer em atentados ao depositum fidei. A Igreja ama e venera a Santíssima Virgem, mas dentro de uma moldura que é a confissão de Jesus, como único Senhor e Mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2, 5). Nas palavras do Catecismo: “o que a fé católica crê acerca de Maria funda-se no que ela crê acerca de Cristo” (Cat. 487).

            Neste sentido, o Concílio Vaticano II, teve o cuidado de incluir a Virgem Maria na constituição dogmática que expunha a doutrina da Igreja.[2] Desta forma o Concílio relaciona Mariologia e Eclesiologia. Ou seja, Maria é membro excelente da Igreja e, ao mesmo tempo, ícone desta mesma Igreja. Isto posto, conclui-se que a piedade mariana precisa desembocar na eclesiologia. Essa compreensão, resgatada e valorizada pelo Concílio, é tipicamente agostiniana. E este é o tema que tentaremos desenvolver neste breve artigo: aspectos eclesiológicos da mariologia agostiniana.

            Salientamos que não é nosso interesse esgotar o tema; muito menos apresentar uma densa teologia mariológica agostiniana, até porque, Agostinho não compôs uma Mariologia sistemática. Nosso interesse é, apenas, provocar e contribuir para uma adequada e saudável piedade mariana; e, minimamente, divulgar o pensamento agostiniano. Destaque-se, de antemão, que para Agostinho, Maria é Virgo Virginum e Thetókos. E são justamente estas categorias de virgindade e maternidade que Agostinho vai explorar em sua Eclesiologia.

Para o Hiponense, Maria se inscreve como parte da Igreja. É Mãe de Cristo, mas é, também, membro do Corpo Místico de Cristo. No sermão 72 ele deixa claro: “Santa é Maria! Abençoada é Maria! Mas a Igreja é superior à Virgem Maria. Por quê? Porque Maria é uma porção da Igreja, um membro, um membro excelente, um membro supereminente, mas membro do Corpo total. Ora, se é parte do corpo total, sem dúvida o corpo é maior do que um membro”.[3] Ao destacar a superioridade da Igreja, Agostinho não despreza ou desconsidera a singularidade de Maria, mas, ao contrário, ratifica a inevitável ligação de Maria com a natureza e ao mistério da Igreja.

            Segundo Nair de Assis Oliveira, “o relacionamento de Maria com a Igreja constitui um capítulo particularmente rico na teologia mariológica agostiniana. [...] Em resumo, a ideia fundamental da relação mútua entre Maria e a Igreja consiste em que ela é a pessoa na qual se recapitula toda a Igreja”.[4] Conforme lembra o Concílio Vaticano II, a Mãe de Deus é a figura da Igreja na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (cf. LG n.63). Ora, se ela é a “pessoa na qual se recapitula toda a Igreja”, é preciso identificar os principais aspectos dessa recapitulação. Na compreensão agostiniana então três são os aspectos que se destacam: a virgindade, a maternidade e o discipulado.

            No início de sua missão sacerdotal, Agostinho escreveu uma pequena obra intitulada De fide et symbolo (393 d.C.). Nela está registrado um firme testemunho da fé na perfeita e perpétua virgindade de Maria.[5] A metáfora usada nesta obra é a do sepulcro novo, no qual foi depositado o corpo de Jesus na noite da paixão (cf. Mt 27, 59-60, Jo 19, 41). Segundo ele, “assim como nesse sepulcro nenhum morto foi sepultado, nem antes, nem depois, também no seio virginal de Maria, nem antes nem depois, ser mortal algum foi concebido”.[6] Já que Deus veio habitar num seio materno, “deixando-o intacto”.[7]

            A virgindade de Maria, preconiza a virgindade da Igreja. “Cristo, que haveria de fazer germinar a virgindade no coração de sua Igreja, antecipou-a no corpo de Maria”, [8] diz Agostinho. Conforme ensina o Vaticano II, a Igreja é “a virgem que guarda íntegra e

pura a fé jurada ao Esposo, e, à imitação da Mãe do seu Senhor, pela graça do Espírito Santo, conserva virginalmente íntegra a fé, sólida a esperança, sincera a caridade” (LG n. 64). Para o hiponense é na integridade da fé, da esperança e da caridade que reside a virgindade da Igreja. Uma integridade que é extremamente fecunda. Porque “nem em Maria nem na Igreja, a virgindade impede a fecundidade. E nem em uma nem em outra a fecundidade destrói a virgindade”.[9]

            A maternidade é o segundo aspecto que se destaca na relação entre Maria e a Igreja, na compreensão agostiniana. Enquanto figura da Igreja, Maria encontra-se intimamente unida a ela pelo “dom e cargo da maternidade” (LG n.63). Maria é mãe de Cristo-Cabeça. E a Igreja, é mãe dos membros de Cristo, sendo ela, ao mesmo tempo, o Corpo Místico de Cristo. Nas palavras de Santo Agostinho: “Maria deu à luz corporalmente à Cabeça deste corpo. A Igreja dá à luz espiritualmente os membros dessa Cabeça”.[10]

            Esta relação da Igreja mãe, foi posta por Agostinho no coração de sua eclesiologia. Para ele, ao contemplar a fecundidade de Maria, a Igreja reconhece sua própria vocação à maternidade e, “a exemplo da mãe de Cristo, todos os dias dá à luz a novos membros para ele”.[11] Contemplando a santidade misteriosa de Maria, imitando a sua caridade, e cumprindo fielmente a vontade do Pai, pela pregação e pelo batismo, a Igreja gera filhos concebidos do Espírito Santo e nascidos de Deus (cf. LG n.64). Ela é mãe, sobretudo, porque manifesta ao mundo a paternidade universal de Deus. É mãe porque, vivificada pelo Espírito Santo, infunde a lei da caridade; e a caridade é, essencialmente, materna. Em suma, a Igreja é mãe pelo ardor da caridade (Mater visceribus caritatis).[12]

            O terceiro aspecto, inclusive o mais louvável, é o discipulado. Um aspecto que, conforme lembra Agostinho, foi louvado pelo próprio Jesus ao dizer que sua mãe e seus irmãos são todos aqueles que fazem a vontade do Pai que está nos céus (cf. Mt 12, 46-50). “Isso também acontece com Maria, visto que ela sempre está a fazer a vontade do Pai. É isso o que o Senhor pretende glorificar nela: o ter cumprido a vontade do Pai, não o fato de haver em sua carne gerado a sua própria carne. Que Vossa Caridade fique atenta (ainda a este ponto): Enquanto o Senhor suscitava a admiração do povo por causa de seus milagres e prodígios, manifestando o que ocultava em sua carne, alguém exclamou com

admiração: ‘Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!’ Ele, porém, respondeu: ‘Felizes, antes, os que ouvem a Palavra de Deus e a observam’ (Lc 11, 27-28). Isso significa: minha mãe, ela mesma, a quem chamais de feliz, é feliz porque guarda a palavra de Deus. Não é feliz somente porque nela a Palavra ‘se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1, 14). É feliz, porque guardou essa mesma Palavra de Deus, por quem foi feita e que nela se fez carne”.[13] Para o santo bispo de Hipona, “Maria tornou-se mais feliz recebendo a fé de Cristo do que concebendo a carne de Cristo”.[14] Assim, ela não só é icônica da Igreja pela virgindade e maternidade, mas também pelo cumprimento perfeito da vontade do Pai, mediante a fé: “valeu mais para ela ser discípula de Cristo do que a mãe de Cristo. Maior felicidade para ela ter sido discípula do que mãe. [...] Porque já antes de dar à luz o Mestre, ela já o trazia em seu espírito”.[15]

            Ao que parece, para Agostinho a maternidade de Maria e, consequentemente, da Igreja dependem do discipulado. Desta abertura à palavra de Deus, da observância desta palavra depende a fecundidade. Maria só pôde ser mãe de Cristo porque, antes ouviu e guardou a palavra de Deus. “Guardou a Verdade na mente, mais do que em seu seio”,[16] diz Agostinho. Ela foi fecundada pelo ouvido (fecundis in auris). A Igreja, da mesma forma, conforme ensina o Vaticano II, “torna-se mais semelhante ao seu modelo tão excelso, progredindo continuamente na fé, na esperança e na caridade, buscando e cumprindo em tudo a vontade de Deus” (LG n. 65).

            Pelo discipulado, todos os crentes tornam-se, a seu modo, “mães de Cristo”. E, em certa medida, esta é a primordial tarefa cristã: acolher a fé de Cristo e gerá-lo para o mundo. Conforme lembra Agostinho, “sua mãe, a Virgem Maria, trouxe-o em seu seio. Tragamo-lo a Ele, em nosso coração. A Virgem ficou grávida pela encarnação de Cristo. Engravidem-se nossos corações pela fé de Cristo. A Virgem deu à luz o Salvador. Que nossas almas gerem a salvação e entoem louvores. Não sejamos estéreis. Sejam nossas almas fecundas para Deus!”.[17]

            A esta altura podemos nos perguntar o que significa gerar Cristo para o mundo? O que significa ser discípulo (a) como Maria? Como podemos ser fecundos para Deus? A exemplo da Virgem precisamos, antes de tudo, acolher a palavra do Senhor. Acolhe-la no coração, deixando que a palavra molde nossa existência, renove nossa mentalidade e condicione nosso agir. Depois, precisamos, como a Santíssima Virgem, frutificar. Fazer a palavra dar frutos em nós. Não basta ouvir a palavra de Deus; não basta divulgá-la; é preciso vivê-la. E nisto reside a profundidade da verdadeira devoção à Santíssima Virgem: viver a palavra de Deus; moldar a própria vida a partir de seus valores, custe o que custar.

            Com esta breve exposição cremos ter apresentado, ainda que epidermicamente, os principais aspectos eclesiológicos da mariologia agostiniana. Aspirando com isto, divulgar a teologia agostiniana e contribuir para uma adequada e saudável piedade mariana que honre Maria, nos limites da moldura da fé cristológica, e se traduza em sincero e fértil esforço de discipulado.

Frei Jeferson Felipe Gomes da Silva Cruz, OSA.
Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte MG). E-mail: j.felipecruz05@gmail.com

_______________________________ 

[1] Cf. JUNG, Carl Gustav. A resposta de Jó. Petrópolis: Vozes, 1980, p. 103-112.
[2] Constituição Dogmática Lumen Gentium.
[3] Sermão, 72 A, 7.
[4] SANTO AGOSTINHO. A Virgem Maria: em textos marianos com comentários. Tradução: Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 1996, p. 12-13.
[5] Atente-se que o dogma da Virgindade perpétua de Maria não é cunhado por Agostinho. Ele apenas é herdeiro e defensor. Além de todos os relatos bíblicos, no ano 107, por exemplo, Inácio de Antioquia já descrevia a virgindade de Maria. “Estais firmemente convencidos acerca de Nosso Senhor, que é verdadeiramente da raça de Davi segundo a carne, Filho de Deus segundo a vontade e o poder de Deus, verdadeiramente nascido de uma virgem...” (Ad Smyrn, I-II).
[6] De fide et symbolo V, 11.
[7] De fide et symbolo IV, 8.
[8] Sermão 188, 4.
[9] A virgindade consagrada II, 2.
[10] A virgindade consagrada II, 2.
[11] Enchiridion X, 34.
[12] Cf. TRAPÈ, Agostino. Introduzione Generale a Sant’Agostino. Roma: Città Nuova Editrice, 2006, p. 210.
[13] Comentário ao Evangelho de João X, 3.
[14] A Virgindade consagrada III, 3.
[15] Sermão 72 A, 7.
[16] Sermão 72 A, 7.
[17] Sermão 189, 2-4.

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24 abr
Confinados por aqueles que confinamos
Um aspecto da pandemia pouco explorado é o fato de estarmos confinados devido à forma equivocada como nos relacionamos e confinamos as outras espécies. Vivemos em uma casa comum, entretanto procedemos como se a nossa espécie fosse a única com direitos.

Dizemos e cantamos que “tudo está interligado, como se fôssemos um”, porém somos seletivos e cortamos as interdependências que nos conectam com o mundo natural. Vemo-nos fora e acima da teia da vida. Como bem diz Papa Francisco, “esquecemos que somos Terra” e acrescento, esquecemos que somos animais, animais humanos. Somos, nesse sentido, especistas, expressão cunhada pelo filósofo americano Gary Francione. Nossa ética é tradicional, construída pelo homem e para o homem.

Sabemos que o novo coronavírus, que pode causar infecções respiratórias graves, é uma zoonose, ou seja, uma doença que começou em animais infectados e foi transmitida de animais para as pessoas. A culpa não é dos animais, mas da forma como os manipulamos. Os mercados abertos da China misturam alimentos, animais silvestres e domésticos, vivos ou abatidos na hora, na frente do freguês. Ambiente que favoreceu, pelo que tudo indica, a contaminação de humanos pelo, agora famoso, SARS-CoV-2, agente causador da COVID-19. Os tradicionais mercados públicos de nossas cidades fazem algo semelhante ao venderem pássaros, galinhas, cachorros e tartarugas em espaços exíguos, insalubres, sujos e de grande aglomeração, junto com verduras, queijos, carnes, etc.

Em 2013, um relatório da Organização das Nações Unidades para Agricultura e Alimentação (FAO) já denunciava que 7 em cada 10 doenças surgidas desde a década de 1940 eram de origem animal. A mistura de nossa ação predatória em relação aos ecossistemas, o confinamento de animais em grande escala e as grandes aglomerações nos centros urbanos tornaram o ambiente favorável para a seleção de novas mutações e o aparecimento de novas doenças para as quais não há remédios ou vacinas e nos deixam, a cada dia, mais vulneráveis.

Segundo Yuval Noah Harari, no livro Homo Deus, “durante milênios o Homo sapiens tornou-se o mais importante fator individual na mudança da ecologia global”. Ele traz um dado espantoso sobre a atual composição da biomassa global de animais de grande porte: 100 milhões de toneladas de grandes animais selvagens; 300 milhões de toneladas de humanos; e 700 milhões de toneladas de animais domesticados. Os princípios de organização dos ecossistemas não permitiriam essa bizarrice de uma espécie se multiplicar ad infinitum, sem que processos naturais fizessem a correção. Nossa curta visão e critérios que só enxergam a natureza e as espécies animais com a lente da utilidade e lucro, ao contrário, dá o nome para isso de desenvolvimento e progresso. Precisamos nos atentar para o confinamento de animais pela indústria da carne, que abate bilhões de animais por ano. Ou que o rebanho bovino brasileiro tem mais cabeças que toda a população brasileira.

Nesse reencontro com aquilo que alimenta o nosso corpo, deveríamos nos perguntar: de que é feito isso e aquilo? Como é produzido? Ficaremos surpresos ao ver que, da hora que acordamos até a hora que vamos dormir, tudo aquilo que comemos tem algum ingrediente de origem animal. Devemos nos perguntar: é preciso? Esse ato automático de levar o garfo até a boca, para muito além do gosto pessoal, cultura ou tradição, em tempos de pandemia, passa a ser um gesto sanitário, ecológico, político, ético, humanitário, social e, por que não, saudável.

Aleluia Heringer
Doutora em Educação, Líder de Sustentabilidade da Sociedade Inteligência e Coração (SIC)

*Artigo publicado no Jornal Estado de Minas - 24/04/2020 e na Agência de Notícias de Direitos Animais - dia 17/04.
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20 abr
Em defesa da vida: É tempo de cuidar

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pede empenho dos católicos na luta contra o aborto; STF julgará na próxima sexta-feira, 24, ação sobre liberação do aborto em caso de Zika vírus.

EM DEFESA DA VIDA: É TEMPO DE CUIDAR

A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, porta-voz da Igreja Católica na sociedade brasileira, em sintonia com segmentos, instituições, homens e mulheres de boa vontade, convoca a todos pelo empenho em defesa da vida, contra o aborto, e se dirige, publicamente, como o faz em carta pessoal, aos Senhores e Senhoras Ministros do Supremo Tribunal Federal para dizer, compartilhar e ponderar argumentações, e considerar, seriamente, pelo dom inviolável da vida, o quanto segue:

“É tempo de cuidar”, a vida é dom e compromisso! A fé cristã nos compromete, de modo inarredável, na defesa da vida, em todas as suas etapas, desde a fecundação até seu fim natural. Este compromisso de fé é também um compromisso cidadão, em respeito à Carta Magna que rege o Estado e a Sociedade Brasileira, como no seu Art 5º, quando reza sobre a inviolabilidade do direito à vida.
Preocupa-nos e nos causa perplexidades, no grave momento de luta sanitária pela vida, neste tempo de pandemia do COVID-19, desafiados a cuidar e amparar muitos pobres e empobrecidos pelo agravamento da crise econômico-financeira, saber que o Supremo Tribunal Federal pauta para este dia 24 de abril 2020, em sessão virtual, o tratamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 5581, ajuizada pela Associação Nacional dos Defensores Públicos – ANADEP, requerendo a declaração de inconstitucionalidade de alguns dispositivos da Lei 13.301/2016 e a interpretação conforme a Constituição de outros dispositivos do mesmo diploma legal.

Há de se examinar juridicamente a legitimidade ativa desta Associação de Defensores Públicos, como bem destacado nas manifestações realizadas nos autos pela Presidência da República, Presidência do Congresso Nacional, Advocacia Geral da União e Procuradoria Geral da República, pois nos parece, também, que a referida Associação não é legitimada para propor a presente ADI, tendo bem presente que a Lei 13.985/2020 trouxe suporte e apoio para as famílias que foram afetadas pelo Zika vírus, instituindo uma pensão vitalícia as crianças com Síndrome Congênita como consequência.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reitera sua imutável e comprometida posição em defesa da vida humana com toda a sua integralidade, inviolabilidade e dignidade, desde a sua fecundação até a morte natural comprometida com a verdade moral intocável de que o direito à vida é incondicional, deve ser respeitado e defendido, em qualquer etapa ou condição em que se encontre a pessoa humana. Não compete a nenhuma autoridade pública reconhecer seletivamente o direito à vida, assegurando-o a alguns e negando-o a outros. Essa discriminação é iníqua e excludente; “causa horror só o pensar que haja crianças que não poderão jamais ver a luz, vítimas do aborto”. São imorais leis que imponham aos profissionais da saúde a obrigação de agir contra a sua consciência, cooperando, direta ou indiretamente, na prática do aborto.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil insta destacar que o combatido artigo 18 da referida Lei 13.301/2016, cuja ADI pretendia a declaração de inconstitucionalidade de alguns dispositivos, foi completamente revogado pela MP 894 de 2019, convertida em Lei em 2020 (L. 13.985/2020). Desta forma, parece-nos ainda que o objeto da ação foi superado, não servindo a ação para declarar a inconstitucionalidade de outra lei que não a inicialmente combatida.

A CNBB requer, portanto, que, acaso seja superada a preliminar de ilegitimidade ativa suscitada por todas as autoridades públicas que se manifestaram, e não seja extinta a ADI pela perda do objeto, no mérito não sejam acolhidos quaisquer dos pedidos formulados para autorizar, de qualquer forma, o aborto de crianças cujas mães sejam diagnosticadas com o zikavirus durante a gestação.

Reafirmamos, fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo, nosso repúdio ao aborto e quaisquer iniciativas que atentam contra a vida, particularmente, as que se aproveitam das situações de fragilidade que atingem as famílias. São atitudes que utilizam os mais vulneráveis para colocar em prática interesses de grupos que mostram desprezo pela integridade da vida humana. (S. João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae, 58).

Esperamos e contamos que a Suprema Corte, pautada no respeito à inviolabilidade da vida, no horizonte da fidelidade moral e profissional jurídica, finalize esta inquietante pauta, fazendo valer a vida como dom e compromisso, na negação e criminalização do aborto, contribuindo ainda mais decisivamente nesta reconstrução da sociedade brasileira sobre os alicerces da justiça, do respeito incondicional à dignidade humana e na reorganização da vivência na Casa Comum, segundos os princípios e parâmetros da solidariedade.

Cordialmente,

Brasília, 19de abril de 2020

Domingo da Misericórdia

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Presidente

Dom Jaime Spengler
1º Vice-presidente

Mário Antônio da Silva
2º Vice-presidente

Dom Joel Portella Amado
Secretário-geral

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12 abr
Quarentena Quaresmal na expectativa da Quarentena Pascal

O Tríduo Pascal é o centro de todas as celebrações litúrgicas da vida da Igreja: celebramos a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ao celebrarmos a Páscoa de Jesus, diariamente, semanalmente e anualmente, damos sentido a toda a nossa vida. Também vivemos as dores e prazeres, alegrias e tristezas, enfermidade e saúde, vida e morte, em ritmo pascal, com pequenas mortes e pequenas ressurreições, até o dia definitivo de nossa ressurreição e da ressurreição do mundo.

São quarenta dias antes do Tríduo Pascal (Quaresma) e quarenta dias depois do Tríduo Pascal (Tempo Pascal). Santo Agostinho nos oferece uma bela reflexão sobre o sentido da Quaresma e o Tempo de Louvor: “Neste período quaresmal vivemos os nossos dias que simbolizam as fadigas do tempo presente, nos jejuns e na observância quaresmal, não resguardando a própria vida; o período que virá simboliza o tempo futuro. Ainda não estamos lá; eu, de fato, disse ‘simboliza’ e não ‘será’. Até a paixão, portanto, é tempo de penitência; depois da ressurreição será o tempo de louvor” (Sermo 211/A).

Nesta Quaresma estamos experimentando uma verdadeira “quarentena quaresmal”: a epidemia do Covid-19 (coronavírus) fez o mundo, de certa forma, parar. Houve desde alarmismos, com informações inverídicas, até banalização irresponsável do fenômeno, inclusive da parte de altas autoridades. A sociedade civil, principalmente, se mobilizou para conclamar os cidadãos/ãs a exercerem, mais que nunca, a cidadania: todos somos responsáveis e cada qual deve fazer sua parte. Esse cuidado com a coletividade revela-se como uma autêntica obra de misericórdia.

A Quaresma prepara para a Páscoa. Como será a Páscoa desse ano? Templos vazios? Celebrações só pelas mídia? Mesmo que os templos se fechem, a Igreja não fechará, pois a Igreja somos nós, Povo de Deus a caminho.

De toda forma, vivemos uma grande expectativa, com certa apreensão: o pico da pandemia no Brasil acontecerá em abril, Semana Santa compreendida. Muitas pessoas, infelizmente, viverão esta paixão, literalmente (não nos esqueçamos de tantas outras paixões dos esquecidos!). Certamente neste ano teremos que continuar em quarentena. Será então uma “quarentena pascal”. E a vida continuará, será mais forte que a morte.

 Quem crê não se desespera, pois a “esperança nunca decepciona” (Rom 5,5). Será uma vez mais a oportunidade de continuarmos a ver os que sofrem, sentir compaixão e deles cuidar! Pois a Campanha da Fraternidade não é só do tempo quaresmal, é do ano inteiro, para que seja verdadeiramente tempo pascal. Vida pascal samaritana, sempre!

Que a presença do Senhor Ressuscitado nos fortaleça no caminho. Feliz Páscoa, minha irmã, meu irmão!

 

Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA
Prior Provincial

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16 mar
Estátua! Quando é necessário mover!

A palavra ‘recorde’ está associada a um desempenho excepcional que supera os anteriores. O ano de 2020, que ainda mal começou, neste sentido, é extraordinário! Já se superou em muitas provas, entretanto tais feitos não são para comemorar. A Antártica registrou, no dia 13 de fevereiro, a temperatura de 18,3° Celsius, a mais alta da história. No Ártico, também o recorde de 20° Celsius, o que tem levado o Mar de Bering a descongelar em pleno inverno. Por detrás de tais proezas, a ação humana, segundo dados do IPCC.

A emissão de gases de efeito estufa que aquece o planeta, até 2030, precisa diminuir mais de 7% ao ano para que o aumento na temperatura média global seja de apenas 1,5° em relação aos níveis pré-industriais. Se mantivermos o ritmo nas emissões, a previsão dos climatologistas é de chegarmos a um aumento de 3,2°, o que seria não mais uma crise, mas uma catástrofe climática irreversível. Para termos uma noção do que isso significa, a temperatura média global em 2019 foi de 1,1° C acima dos níveis pré-industriais, o suficiente para provocar todos os eventos climáticos extremos que estamos presenciando.

Aqui cabem ações urgentes para alterar os modos de produção e consumo, como a revisão dos modelos de economia, desenvolvimento e progresso. Além disso, ações orientando as tomadas de decisão, a revisão da ética com que lidamos com os mais pobres e seus territórios, os imigrantes ambientais e as outras espécies, animais não humanos com quem dividimos nossa Casa, que lutamos para que nos seja comum.

A discussão polariza e pouco avança quando se trata de saber de quem é a responsabilidade. É dos grandes e poderosos ou dos indivíduos? Ingênuo considerar que uma crise de tamanha monta possa suprimir qualquer setor, pessoas ou nação. Há mudanças estruturais e de alta complexidade que dependem do esforço político e coordenado daqueles que detêm o poder. Oportuno destacar a lentidão nas respostas das grandes conferências internacionais que só contribui para agravar a situação.

Do outro lado, os indivíduos, pessoas simples e anônimas. Já entendemos que algo está fora de ordem e dessa constatação vem um outro recorde, que é da nossa apatia. Como é difícil mexer com estruturas de pensamento, hábitos, tradições e estilo de vida! E sobretudo parar a máquina econômica ou redirecioná-la. Ao nível individual, parece que recebemos o comando da brincadeira: estátua! Congelamos e não mais saímos. Aquele que burla a regra e resolve se mover logo é desencorajado, afinal “não adianta”, é o “sistema”. Ora, o tal “sistema” só muda por pressão do “mercado”, pois depende de consumidores que o irão regular. Ele não é o vilão da história. Almeja apenas o lucro e irá nos entregar exatamente aquilo que o nosso desejo de consumo demandar. Pode ser o abacaxi, carro voador, o aço ou carne de cabrito. O sistema, nesse sentido, não tem moral.

Constatamos que, de forma despretensiosa, milhares de indivíduos estão impactando suas famílias, os amigos, sua escola, seu trabalho, as políticas públicas, o mercado, a mídia e a indústria. Não é algo planejado e nem se tem clareza onde tudo isso vai dar; ainda assim, se movem, porque faz sentido se mover.

Há aspectos da vida social que só teremos clareza na longa duração e vendo do alto; entretanto, o fluxo histórico é feito aqui e agora, conforme elucida o sociólogo alemão Norbert Elias, no seu livro “A Sociedade dos Indivíduos”. Ele afirma que a história vai se construindo a partir das pressões exercidas “pelas” e “entre” as pessoas. Visto de perto, é pequeno o poder de uma pessoa, mas são essas microtensões que preparam o terreno para mudanças estruturais da sociedade ou efetivamente as acarretam. Nunca foi tão importante considerar essa perspectiva.

Precisamos nos perguntar: o que repensar, recusar e não autorizar para que a exploração desmedida da Natureza desacelere? Com quem devemos nos conectar e em quais coletivos devemos nos inserir? Podemos provocar e ajudar a escrever novas manchetes e recordes que sinalizem para nossa mudança de estilo de vida, consumo e valores. Essa escrita começa com o indivíduo, no seu caderno chamado “sua vida”, e irá se entrelaçar com muitas outras histórias até, quem sabe, mudar a história.

Aleluia Heringer
Doutora em Educação, Líder de Sustentabilidade da Sociedade Inteligência e Coração (SIC)

*Artigo publicado no Jornal Estado de Minas - 12/03/2020

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26 fev
Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma

Com efeito, a experiência da misericórdia só é possível
«face a face» com o Senhor crucificado e ressuscitado,
que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim.

(Gl 2, 20)

Queridos irmãos e irmãs,

O Senhor concede-nos, também neste ano, um tempo propício para nos prepararmos para celebrar, de coração renovado, o grande Mistério da morte e ressurreição de Jesus, cerne da vida cristã pessoal e comunitária.

Com a mente e o coração, devemos voltar continuamente a este Mistério. Com efeito, o mesmo não cessa de crescer em nós na medida em que nos deixarmos envolver pelo seu dinamismo espiritual e aderirmos a ele com uma resposta livre e generosa.

1. O Mistério pascal, fundamento da conversão

A alegria do cristão brota da escuta e recepção da Boa Nova da morte e ressurreição de Jesus: o kerygma. Este compendia o Mistério dum amor «tão real, tão verdadeiro, tão concreto, que nos proporciona uma relação cheia de diálogo sincero e fecundo» (Francisco, Exort. ap. Christus vivit, 117).

Quem crê neste anúncio rejeita a mentira de que a nossa vida teria origem em nós mesmos, quando na realidade nasce do amor de Deus Pai, da sua vontade de dar vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Se, pelo contrário, se presta ouvidos à voz persuasora do «pai da mentira» (Jo 8, 44), corre-se o risco de precipitar no abismo do absurdo, experimentando o inferno já aqui na terra, como infelizmente dão testemunho muitos acontecimentos dramáticos da experiência humana pessoal e coletiva.

Por isso, nesta Quaresma de 2020, quero estender a todos os cristãos o mesmo que escrevi aos jovens na Exortação apostólica Christus vivit: «Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo. E quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na sua misericórdia que te liberta de toda a culpa.

Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por ele. Assim, poderás renascer sempre de novo» (n. 123).

A Páscoa de Jesus não é um acontecimento do passado: pela força do Espírito Santo é sempre atual e permite-nos contemplar e tocar com fé a carne de Cristo em tantas pessoas que sofrem.

2. Urgência da conversão

É salutar uma contemplação mais profunda do Mistério pascal, em virtude do qual nos foi concedida a misericórdia de Deus. Com efeito, a experiência da misericórdia só é possível «face a face» com o Senhor crucificado e ressuscitado, «que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim» (Gl 2, 20).

Um diálogo coração a coração, de amigo a amigo. Por isso mesmo, é tão importante a oração no tempo quaresmal. Antes de ser um dever, esta expressa a necessidade de corresponder ao amor de Deus, que sempre nos precede e sustenta.

De fato, o cristão reza ciente da sua indignidade de ser amado. A oração poderá assumir formas diferentes, mas o que conta verdadeiramente aos olhos de Deus é que ela escave dentro de nós, chegando a romper a dureza do nosso coração, para o converter cada vez mais a Ele e à sua vontade.

Por isso, neste tempo favorável, deixemo-nos conduzir como Israel ao deserto (cf. Os 2, 16), para podermos finalmente ouvir a voz do nosso Esposo, deixando-a ressoar em nós com maior profundidade e disponibilidade.

Quanto mais nos deixarmos envolver pela sua Palavra, tanto mais conseguiremos experimentar a sua misericórdia gratuita por nós. Portanto não deixemos passar em vão este tempo de graça, na presunçosa ilusão de sermos nós o dono dos tempos e modos da nossa conversão a Ele.

3. A vontade apaixonada que Deus tem de dialogar com os seus filhos

O fato de o Senhor nos proporcionar uma vez mais um tempo favorável para a nossa conversão, não devemos jamais dá-lo como garantido.

Esta nova oportunidade deveria suscitar em nós um sentido de gratidão e sacudir-nos do nosso torpor. Não obstante a presença do mal, por vezes até dramática, tanto na nossa existência como na vida da Igreja e do mundo, este período que nos é oferecido para uma mudança de rumo manifesta a vontade tenaz de Deus de não interromper o diálogo de salvação conosco.

Em Jesus crucificado, que Deus «fez pecado por nós» (2 Cor 5, 21), esta vontade chegou ao ponto de fazer recair sobre o seu Filho todos os nossos pecados, como se houvesse – segundo o Papa Bento XVI – um «virar-se de Deus contra Si próprio» (Enc. Deus caritas est, 12). De fato, Deus ama também os seus inimigos (cf. Mt 5, 43-48).

O diálogo que Deus quer estabelecer com cada homem, por meio do Mistério pascal do seu Filho, não é como o diálogo atribuído aos habitantes de Atenas, que «não passavam o tempo noutra coisa senão a dizer ou a escutar as últimas novidades» (At 17, 21).

Este tipo de conversa, ditado por uma curiosidade vazia e superficial, carateriza a mundanidade de todos os tempos e, hoje em dia, pode insinuar-se também num uso pervertido dos meios de comunicação.

4. Uma riqueza que deve ser partilhada, e não acumulada só para si mesmo

Colocar o Mistério pascal no centro da vida significa sentir compaixão pelas chagas de Cristo crucificado presentes nas inúmeras vítimas inocentes das guerras, das prepotências contra a vida desde a do nascituro até à do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em todas as suas formas e da sede desenfreada de lucro, que é uma forma de idolatria.

Também hoje é importante chamar os homens e mulheres de boa vontade à partilha dos seus bens com os mais necessitados através da esmola, como forma de participação pessoal na edificação dum mundo mais justo.

A partilha, na caridade, torna o homem mais humano; com a acumulação, corre o risco de embrutecer, fechado no seu egoísmo. Podemos e devemos ir mais além, considerando as dimensões estruturais da economia.

Por este motivo, na Quaresma de 2020 – mais concretamente, de 26 a 28 de março –, convoquei para Assis jovens economistas, empreendedores e transformativos, com o objetivo de contribuir para delinear uma economia mais justa e inclusiva do que a atual.

Como várias vezes se referiu no magistério da Igreja, a política é uma forma eminente de caridade (cf. Pio XI, Discurso à FUCI, 18/XII/1927). E sê-lo-á igualmente ocupar-se da economia com o mesmo espírito evangélico, que é o espírito das Bem-aventuranças.

Invoco a intercessão de Maria Santíssima sobre a próxima Quaresma, para que acolhamos o apelo a deixar-nos reconciliar com Deus, fixemos o olhar do coração no Mistério pascal e nos convertamos a um diálogo aberto e sincero com Deus. Assim, poderemos tornar-nos aquilo que Cristo diz dos seus discípulos: sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13.14).

Roma, em São João de Latrão, 7 de outubro de 2019
Memória de Nossa Senhora do Rosário.

Papa Francisco

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7 fev
Cuidar da Casa Comum é cuidar de si

A consciência de um mundo mais integrado habita o imaginário da humanidade neste começo do século XXI. As relações estabelecidas entre os povos e o meio ambiente se transformaram em elementos fundamentais dos noticiários cotidianos, das propagandas oficiais dos governos e das nossas conversas informais. Estamos descobrindo que cuidar da nossa casa comum – que chamamos meio ambiente – faz parte do cuidado de si. E, que se quisermos aproveitar o pretenso progresso que conquistamos ao longo do século passado devemos rever nossa forma de ser e estar no planeta. A sustentabilidade e o desenvolvimento parecem ter se encontrado e fazem um esforço para conviverem no meio de nós.

Santo Agostinho, já no século IV da era cristã, trazia em suas reflexões pistas importantes para construirmos uma relação saudável entre o homem e a criação, como compreensão da realidade histórica do homem como parte da criação divina. “Possuamos as coisas terrenas sem deixar-nos possuir por elas. Que não se deslumbre sua multiplicação nem nos afunde sua carência. Vivamos bem com elas, sem fazer-nos nem seus servidores nem escravizá-las.” Carta 15, 2 de Santo Agostinho. Para este filósofo, a relação harmônica entre o homem e a criação de Deus se dá através de uma convivência que se (re) constrói a partir de duas ideias básicas: a ordem e a paz.

Para Santo Agostinho, a ordem é “a correta disposição das coisas semelhantes e diferentes, em virtude da qual cada uma delas ocupa o lugar que lhe é próprio.” Santo Agostinho in Cidade de Deus 19, 13, 1. A partir desta, o homem se locomove e se organiza frente a sua realidade terrena e transitória, respeitando o local e a finalidade de todas as coisas criadas por Deus. Desta forma, os homens e mulheres constroem na terra, não só o caminho que leva a pátria celeste, mas ela mesma aqui na cidade dos homens. As relações harmoniosas entre a natureza criada por Deus e a humanidade se expressa no uso consciente de seus recursos e a preservação de sua existência, fazendo-se, assim, fundamental para o cumprimento da vontade de Deus e garantindo a continuação da espécie humana peregrina neste mundo terreno. O estabelecimento desta ordem, produzida nas relações de cuidados entre os homens e o meio ambiente, resulta na paz que se reflete no conjunto da criação divina. “A Paz do corpo é a boa coordenação de seus membros. A paz da casa é o ordenando entendimento entre os que habitam nela. A paz da cidade terrena é o consenso ordenado entre seus concidadãos. A paz da cidade celeste é a ordenadíssima e agradabilíssima convivência entre seus cidadãos para gozar de Deus. E a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem.” Santo Agostinho in Cidade de Deus 19, 13. Neste contexto reflexivo, a paz se apresenta como resultado do conjunto de consensos estabelecidos entre os homens para que todo o ecossistema partilhado por todos na cidade dos homens seja vivido em sua ordem e funcionalidade prescrita pela vontade divina. O esforço humano em cumprir a vontade de Deus se revela no estabelecimento saudável e fraterno das relações entre as criaturas criadas por Deus nos contextos das sociedades ao longo da história. O cuidado com a casa comum se concretiza quando a humanidade entende o seu chamado a ser construtora desta paz ordenadora da vida, fazendo com que ela tenha um sentido maior que os efêmeros fins da exploração promovidos pelos prazeres desordenados dos seres humanos.

“Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz.” Sermão 11,12 de Santo Agostinho. A promoção da paz, através da reivindicação da justiça e do direito de um ecossistema concebido como sujeito ativo das relações com a humanidade, deve ser a nossa reflexão neste novo século. Cuidar de si é cuidar do ecossistema que fazemos parte, ou seja, da casa comum a todos os povos, de diferentes línguas e credos. Promover a ordem da criação de Deus é promover a paz que nos garante a vida em abundância tanto da humanidade quando do planeta. O cuidado pacífico deste ecossistema é um dos principais caminhos para que possamos entrar em contato com o nosso interior, os homens, as mulheres e Deus, ou seja, toda a criação.

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27 jan
Cristo é a nossa consciência histórica

Toda humanidade é chamada a contribuir para a construção da história. Os nossos gestos, por menores que sejam, são importantes para o desenvolvimento de nossa história pessoal e comunitária. A nossa postura frente à realidade presente passa a ser uma oportunidade para desenvolvermos um mundo mais justo e fraterno, onde os valores essenciais para o crescimento dos seres humanos podem ser vivenciados de forma saudável nos relacionamentos sociais. O questionamento que nos resta é: temos a consciência de que fazemos parte deste projeto maior de construção da história da humanidade? Como a nossa consciência pode nos ajudar a vivenciá-lo de forma mais efetiva?

Para Santo Agostinho, a consciência da realidade humana é algo fundamental para que nos aproximemos de Deus e possamos construir o nosso presente segundo o projeto de Deus para a humanidade. “Escolhe aquelas classes de bens que deve ter o teu coração, enche-o dessas riquezas espirituais que Deus vê, ainda que não as vejam os homens.” (Santo Agostinho in Comentário aos Salmos 53,8). No coração repousam os bens necessários para que o homem, constituído das riquezas espirituais, possa realizar o seu projeto de construção de uma convivência mais harmônica entre os seus semelhantes e a criação de Deus. É dentro de si mesmo que o homem encontra a tranquilidade necessária para o desenvolvimento de suas habilidades pessoais que o colocará em contato com as necessidades históricas da humanidade. É no reconhecimento da presença de Deus no seu mais íntimo que o homem tem a aprovação para enfrentar os desafios e as dificuldades surgidas em seu caminho, confiante de que não se encontra sozinho na construção de uma história mais adequada à vontade e ao projeto de Deus para si e para os demais. “Que seja suficiente a aprovação daquele que te vê interiormente. Como interno é seu amor por ti, assim também interior seja teu amor por aquele que no interior faz surgir a verdadeira beleza.” (Santo Agostinho in Sermão 36,8)

Por isto, a consciência de que somos importantes na construção de uma realidade melhor para si e para os irmãos é muito importante. A consciência do que acontece externamente aos seres deve encontrar a sua resposta no interior dos homens. Assim eles se sentirão motivados a participar ativamente da vida em todos os seus aspectos, através de gestos que resplandeçam ao ‘Cristo interior’ que habita dentro de cada um de nós. “Entra em teu interior, purifica-o, levanta os teus olhos a Cristo que vive dentro de ti, assim ele te escutará.” (Santo Agostinho in Comentário aos Salmos 93,25). A presença de Cristo em nosso interior nos proporcionará a necessária inquietude para sermos solidários aos nossos irmãos, a indispensável tranquilidade para organizarmos as nossas ações neste mundo e a imperativa consciência de que somos responsáveis em construir uma história a partir dos valores cristãos fundamentais de partilha, de justiça e de fraternidade.

“Cristo vê a tua consciência. Ali é onde Cristo ama, onde Cristo fala, onde Cristo castiga e onde Cristo coroa.” (Santo Agostinho in Comentário aos Salmos 44,29). Voltar ao nosso interior é se comprometer com a construção do mundo exterior. Ter consciência da responsabilidade frente às vicissitudes do mundo é se empenhar em uma vivência histórica mais profundamente enraizada no Cristo presente em cada um de nós. É a oportunidade de realizarmos a sua obra no meio da humanidade e de construirmos uma história diferente, onde os valores humano-cristãos sejam a da nossa consciência em uma interação social dinâmica e criativa. Cristo é a nossa consciência histórica. E por habitar em nós, nos chama à responsabilidade pela criação de uma história, onde a solidariedade, a partilha equitativa e os vínculos fraternos sejam o sinal de que Cristo permanece vivo na história e na consciência de todos os homens e mulheres de boa vontade.

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16 jan
A NOVA PROVÍNCIA - Tributo aos Pioneiros

                A Ordem de Santo Agostinho (OSA) é um instituto religioso da Igreja Católica, de caráter pontifício e internacional. É reconhecido pela Santa Sé e, por isso, pode abrir comunidades e obras e realizar atividades no mundo todo. De fato, a Ordem Agostiniana está presente nos cinco continentes, em mais de cinquenta países.

                A Ordem, como em geral as outras ordens e congregações religiosas, organiza-se em unidades maiores, denominadas províncias; e em unidades menores, chamadas vicariatos e delegações. No Brasil, existem duas províncias agostinianas da OSA: a Província Agostiniana do Brasil, cuja padroeira é Santa Mônica, e a Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil, cuja padroeira é, como o próprio nome indica, Nossa Senhora da Consolação e Correia.

                A Província da Consolação tem sua origem na Província Agostiniana do Sagrado Coração de Jesus de Madri, também conhecida por Província Matritense, por ter boa parte de suas casas e obras na região de Madri, na Espanha. Os primeiros religiosos agostinianos da Província Matritense, que vieram para o Brasil em 1929, saíram do Mosteiro de El Escorial. Por isso são também conhecidos como Agostinianos do Escorial.

                Os primeiros a chegarem foram Frei Antonio Fernández e Frei Manuel Formigo Giráldez, em setembro de 1929. Em outubro chegou Frei Ricardo Rodríguez e, em novembro, Frei Wenceslao Martín. Em 1931, a Província Matritense enviou para o Brasil um numeroso grupo de religiosos, alguns dos quais por terminar os estudos: Frei Andrés Pérez de Toledo, que foi o primeiro vicário da então criada Vicaria Matritense do Brasil. Naquele ano, pouco a pouco vieram os Freis Saturnino Casas, Benito Prieto, Agustín Fincias, Marcelino García, Vicente Rabanal, Francisco Gil Sobejano, Luciano Tobar Pardo, Celestino Elvira, Mariano Luis, Germán Herrero, Juan Francisco Herrero e Victorino Turienzo.

                Em 1932, foi a vez dos Freis Pedro Martínez, Manuel Martínez, Donato Rodríguez, Marceliano García e Aniano Rodríguez. Em 1933, desembarcavam no porto do Rio de Janeiro os Freis Marcelino Barrio Inyesto, Hilario Martínez Rojo, Cipriano Álvarez, Amador Franco e Carlos Vicuña Elizondo, o grande dinamizador das obras agostinianas no período inicial. E, por fim, completando o grupo dos que podemos considerar os “Pioneiros dos Agostinianos do Escorial no Brasil”, chegaram Frei Evaristo Arámbruru e Frei Agustín Cermeño.

                Figuras que poucos de nossos maiores, de idade avançada, conheceram. Para a maioria dos atuais frades, alguns mais experientes, outros mais jovens, esses veneráveis pioneiros são nomes apenas ouvidos, ou talvez só conhecidos nas páginas das crônicas. No entanto, como num álbum de família, queremos aqui resgatar seus nomes, pois, no Livro da Vida, o Senhor da História os conhece. Damos graças a Deus pela vida, entrega e trabalho generoso destes Agostinianos da primeira hora, cujo fruto foi o Vicariato da Consolação (1988), que agora inicia uma nova fase de sua história, como Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil.

 

Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA
Prior Provincial

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8 jan
Mensagem do Papa: Jesus nos salva do gelo da indiferença e da desumanidade

Com os fiéis e peregrinos, o Papa Francisco deu prosseguimento ao seu ciclo de catequeses sobre os Atos dos Apóstolos e na quarta-feira (08/01) comentou a experiência do naufrágio vivida pelo Apóstolo Paulo e sua chegada a Malta.

Na parte final do livro dos Atos, explicou o Pontífice, o Evangelho continua a sua corrida não só por terra, mas também por mar; agora num barco, que leva Paulo, prisioneiro, de Cesareia para Roma.

As condições da travessia são desfavoráveis e a viagem torna-se perigosa, tendo de atracar em Creta. Paulo aconselha a esperarem que a situação melhore, mas o centurião não lhe dá ouvidos e saem para o mar alto.

Desencadeou-se, porém, um vento fortíssimo, que faz a tripulação perder o controle do barco e este fica à deriva. Quando já o desespero se apoderara de todos, Paulo intervém; mesmo na provação e apesar de não lhe terem dado ouvidos, não cessa de ser guardião da vida dos outros e animador da sua esperança.

Homem de fé, sabe que Deus o quer em Roma, como aliás lhe confirma um Anjo: "É necessário que compareças diante de César e, por isso, Deus concedeu-te a vida de todos quantos navegam contigo".

Na verdade, aquela viagem por mar terminaria com o barco encalhado e completamente desfeito, mas os náufragos alcançariam, a nado, a ilha de Malta, onde beneficiaram da hospitalidade dos seus habitantes. “Os malteses são hospitaleiros desde aquele tempo”, elogiou o Papa.


Naufrágio, oportunidade providencial

“O naufrágio, de uma situação de desgraça, se transforma em oportunidade providencial: é uma imersão nas águas que evoca a experiência batismal de morte e ressurreição e que faz experimentar o cuidado de Deus e a sua poderosa salvação.”

Em Malta, chove e faz frio e também aqui Paulo, como verdadeiro discípulo de Cristo, se coloca a serviço para alimentar o fogo da fogueira e é mordido por uma cobra, sem que nada aconteça. E isso faz com que as pessoas o confundam com um malfeitor ou uma divindade. A lenda, acrescentou Francisco, diz que desde então não existem cobras venenosas em Malta.

A estada na ilha se torna para Paulo a ocasião propícia para dar ‘carne’ à palavra que anuncia e exercitar, assim, um ministério de compaixão na cura dos doentes.

“Esta é uma lei do Evangelho”, disse o Papa: “quando um fiel experimenta a salvação, não a mantém para si, mas a coloca à disposição. Um cristão ‘provado’ pode certamente fazer-se mais próximo e tornar o seu coração aberto e sensível à solidariedade para com os outros.”


O amor a Deus é sempre fecundo

A lição que Paulo nos dá neste trecho do Evangelho é de viver as provações unindo-nos a Cristo, certos de que Deus pode atuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos, e toda a pessoa que se entrega a Deus por amor, seguramente será fecunda.

“O amor é sempre fecundo. O amor a Deus é sempre fecundo. Se você recebe os dons do Senhor, isso o levará a doar aos outros. Sempre vai além.” Francisco então concluiu:

“Peçamos hoje ao Senhor que nos ajude a viver todas as provas amparados pela energia da fé; a ser sensíveis aos muitos náufragos da história que desembarcam exaustos nas nossas costas, para que também nós saibamos acolhê-los com aquele amor fraterno que vem do encontro com Jesus. É isto que salva do gelo da indiferença e da desumanidade.”

Na Audiência, teve número de circo e aos fiéis de língua portuguesa, o Papa desejou feliz Ano Novo:

“Amados peregrinos de língua portuguesa, a minha cordial saudação para vós todos, desejando a cada um que sempre resplandeça, nos vossos corações, famílias e comunidades, a luz do Salvador, que nos revela o rosto terno e misericordioso do Pai do Céu. Abracemos o Deus Menino, colocando-nos ao seu serviço: Ele é fonte de amor e serenidade. Ele vos abençoe com um Ano Novo sereno e feliz!”

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3 jan
Mensagem do Papa Francisco para o 28º Dia Mundial do Enfermo
“Lembremo-nos de que a vida é sacra e pertence a Deus, sendo por conseguinte inviolável e indisponível. A vida há de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte”, escreve o Papa.

«Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28)


Queridos irmãos e irmãs!

1.     Estas palavras ditas por Jesus – «vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28) – indicam o caminho misterioso da graça, que se revela aos simples e revigora os cansados e exaustos. Tais palavras exprimem a solidariedade do Filho do Homem, Jesus Cristo, com a humanidade aflita e sofredora. Há tantas pessoas que sofrem no corpo e no espírito! A todas, convida a ir ter com Ele – «vinde a Mim» –, prometendo-lhes alívio e recuperação. «Quando Jesus pronuncia estas palavras, tem diante dos seus olhos as pessoas que encontra todos os dias pelas estradas da Galileia: muita gente simples, pobres, doentes, pecadores, marginalizados pelo ditame da lei e pelo opressivo sistema social. Este povo sempre acorreu a Ele para ouvir a sua palavra, uma palavra que incutia esperança» (Angelus, 6 de julho de 2014).

No XXVIII Dia Mundial do Doente, Jesus dirige este convite aos doentes e oprimidos, aos pobres cientes de dependerem inteiramente de Deus para a cura de que necessitam sob o peso da provação que os atingiu. A quem vive na angústia devido à sua situação de fragilidade, sofrimento e fraqueza, Jesus Cristo não impõe leis, mas, na sua misericórdia, oferece-Se a Si mesmo, isto é, a sua pessoa que dá alívio. A humanidade ferida é contemplada por Jesus com olhos que veem e observam, porque penetram em profundidade: não correm indiferentes, mas param e acolhem o homem todo e todo o homem segundo a respetiva condição de saúde, sem descartar ninguém, convidando cada um a fazer experiência de ternura entrando na vida d’Ele.

2.     Porque tem Jesus Cristo estes sentimentos? Porque Ele próprio Se tornou frágil, experimentando o sofrimento humano e recebendo, por sua vez, alívio do Pai. Na verdade, só quem passa pessoalmente por esta experiência poderá ser de conforto para o outro. Várias são as formas graves de sofrimento: doenças incuráveis e crónicas, patologias psíquicas, aquelas que necessitam de reabilitação ou cuidados paliativos, as diferentes formas de deficiência, as doenças próprias da infância e da velhice, etc. Nestas circunstâncias, nota-se por vezes carência de humanidade, pelo que se revela necessário, para uma cura humana integral, personalizar o contacto com a pessoa doente acrescentando a solicitude ao tratamento. Na doença, a pessoa sente comprometidas não só a sua integridade física, mas também as várias dimensões da sua vida relacional, intelectiva, afetiva, espiritual; e por isso, além das terapias, espera amparo, solicitude, atenção, em suma, amor. Além disso, junto do doente, há uma família que sofre e pede, também ela, conforto e proximidade.

3.     Queridos irmãos e irmãs enfermos, a doença coloca-vos de modo particular entre os «cansados e oprimidos» que atraem o olhar e o coração de Jesus. Daqui vem a luz para os vossos momentos de escuridão, a esperança para o vosso desalento. Convida-vos a ir ter com Ele: «Vinde». Com efeito, n’Ele encontrareis força para ultrapassar as inquietações e interrogativos que vos surgem nesta «noite» do corpo e do espírito. É verdade que Cristo não nos deixou receitas, mas, com a sua paixão, morte e ressurreição, liberta-nos da opressão do mal.

Nesta condição, precisais certamente dum lugar para vos restabelecerdes. A Igreja quer ser, cada vez mais e melhor, a «estalagem» do Bom Samaritano que é Cristo (cf. Lc 10, 34), isto é, a casa onde podeis encontrar a sua graça, que se expressa na familiaridade, no acolhimento, no alívio. Nesta casa, podereis encontrar pessoas que, tendo sido curadas pela misericórdia de Deus na sua fragilidade, saberão ajudar-vos a levar a cruz, fazendo, das próprias feridas, frestas através das quais divisar o horizonte para além da doença e receber luz e ar para a vossa vida.

Nesta obra de restabelecimento dos irmãos enfermos, insere-se o serviço dos profissionais da saúde – médicos, enfermeiros, pessoal sanitário, administrativo e auxiliar, voluntários –, pondo em ação as respetivas competências e fazendo sentir a presença de Cristo, que proporciona consolação e cuida da pessoa doente tratando das suas feridas. Mas, também eles são homens e mulheres com as suas fragilidades e até com as suas doenças. Neles se cumpre de modo particular esta verdade: «Quando recebemos o alívio e a consolação de Cristo, por nossa vez somos chamados a tornar-nos alívio e consolação para os irmãos, com atitude mansa e humilde, à imitação do Mestre» (Angelus, 6 de julho de 2014).

4.     Queridos profissionais da saúde, qualquer intervenção diagnóstica, preventiva, terapêutica, de pesquisa, tratamento e reabilitação há de ter por objetivo a pessoa doente, onde o substantivo «pessoa» venha sempre antes do adjetivo «doente». Por isso, a vossa ação tenha em vista constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a atos de natureza eutanásica, de suicídio assistido ou supressão da vida, nem mesmo se for irreversível o estado da doença.

Quando vos defrontais com os limites e possível fracasso da própria ciência médica perante casos clínicos cada vez mais problemáticos e diagnósticos funestos, sois chamados a abrir-vos à dimensão transcendente, que vos pode oferecer o sentido pleno da vossa profissão. Lembremo-nos de que a vida é sacra e pertence a Deus, sendo por conseguinte inviolável e indisponível (cf. Instr. Donum vitae, 5; Enc. Evangelium vitae, 29-53). A vida há de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte: exigem-no simultaneamente tanto a razão como a fé em Deus, autor da vida. Em certos casos, a objeção de consciência deverá tornar-se a vossa opção necessária, para permanecerdes coerentes com este «sim» à vida e à pessoa. Em todo o caso, o vosso profissionalismo, animado pela caridade cristã, será o melhor serviço ao verdadeiro direito humano: o direito à vida. Quando não puderdes curar, podereis sempre cuidar com gestos e procedimentos que proporcionem amparo e alívio ao doente.

Infelizmente, nalguns contextos de guerra e conflitos violentos, são atacados o pessoal sanitário e as estruturas que se ocupam da receção e assistência dos doentes. Nalgumas áreas, o próprio poder político pretende manipular a seu favor a assistência médica, limitando a justa autonomia da profissão sanitária. Na realidade, atacar aqueles que se dedicam ao serviço dos membros sofredores do corpo social não beneficia a ninguém.

5.     Neste XXVIII Dia Mundial do Doente, penso em tantos irmãos e irmãs de todo o mundo sem possibilidades de acesso aos cuidados médicos, porque vivem na pobreza. Por isso, dirijo-me às instituições sanitárias e aos governos de todos os países do mundo, pedindo-lhes que não sobreponham o aspeto económico ao da justiça social. Faço votos de que, conciliando os princípios de solidariedade e subsidiariedade, se coopere para que todos tenham acesso a cuidados médicos adequados para salvaguardar e restabelecer a saúde. De coração agradeço aos voluntários que se colocam ao serviço dos doentes, procurando em não poucos casos suprir carências estruturais e refletindo, com gestos de ternura e proximidade, a imagem de Cristo Bom Samaritano.

À Virgem Maria, Saúde dos Enfermos, confio todas as pessoas que carregam o fardo da doença, juntamente com os seus familiares, bem como todos os profissionais da saúde. Com cordial afeto, asseguro a todos a minha proximidade na oração e envio a Bênção Apostólica.

Vaticano, Memória do SS. Nome de Jesus, 3 de janeiro de 2020.

[Franciscus]

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29 dez
Sagrada Família - Convite para retomar a comunicação em família

A família é um tesouro precioso que precisa ser apoiado e tutelado, disse o Papa Francisco no domingo, 29 de dezembro, Festa da Sagrada Família, quando deu uma tarefa: retomar a comunicação em família: os pais, os pais com os filhos, com os avós, os irmãos entre eles.

No último Angelus do ano de 2019, Francisco propôs a Sagrada Família de Nazaré como modelo para nossas famílias. “O termo "sagrada" - começou explicando - insere essa família no âmbito de santidade que é dom de Deus mas, ao mesmo tempo, é uma adesão livre e responsável ao projeto de Deus. Assim foi para a família de Nazaré: foi totalmente disponível à vontade de Deus.”


Maria ouve a Palavra de Deus e a coloca em prática

Falando aos milhares de peregrinos e turistas presentes na Praça São Pedro em um domingo ensolarado, com a temperatura por volta dos 9º C, Francisco chamou a atenção para o fato de que “os três componentes da Família de Nazaré, ajudam-se um ao outro a descobrir e realizar o plano de Deus”, e explicou brevemente o papel desempenhado por cada um nesta missão divina, a começar por Maria:

“Como não ficar maravilhados, por exemplo, com a docilidade de Maria à ação do Espírito Santo, que pede a ela para se tornar mãe do Messias?” 

Maria, como toda jovem do seu tempo, estava para concretizar seu projeto de vida, isto é, casar-se com José. Mas quando percebe que Deus a chama para uma missão particular, não hesita em proclamar-se sua "serva”.

O Papa explica que Jesus exaltará a grandeza de Maria não tanto por seu papel de mãe, mas por sua obediência a Deus: "Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática, como Maria": “E quando não compreende bem os eventos que a envolvem, Maria medita no silêncio, reflete e adora a iniciativa divina. A sua presença aos pés da Cruz consagra essa total disponibilidade”.

José, homem do silêncio e da obediência

Quanto a José, ele “não fala, mas age obedecendo”, “é o homem do silêncio, o homem da obediência” - ressalta Francisco - sob a condução de Deus, representada pelo anjo: A página do Evangelho de hoje recorda três vezes essa obediência de José, relacionada à fuga para o Egito e ao retorno à terra de Israel. Sob a guia de Deus, representada pelo anjo, José distancia sua família das ameaças de Herodes, e a salva. A Sagrada Família solidariza assim com todas as famílias do mundo forçadas ao exílio, solidariza com todos aqueles que são forçados a abandonar a própria terra por causa da repressão, da violência, da guerra.

Jesus, a vontade do Pai

Por fim Jesus, a terceira pessoa da Sagrada Família. Jesus, em quem – explica o Papa - houve somente “sim”, o que é manifestado em tantos momentos de sua vida terrena, citando o episódio em que seus pais aflitos o acharam no templo pregando aos doutores da lei, sua oração de entrega ao Pai no Jardim das Oliveiras, todos eventos que são a perfeita realização das próprias palavras de Cristo que diz: “Não quiseste sacrifício nem oblação [...]. Então disse: "Eis que eu venho [...] fazer vossa vontade, Meu Deus".

Uma tarefa: retomar a comunicação em família

Assim, disse Francisco, “Maria, José e Jesus, a Família de Nazaré, representam uma resposta uníssona à vontade do Pai. Os três componentes dessa família singular se ajudam reciprocamente a descobrir e realizar o plano de Deus. Eles rezavam, trabalhavam, se comunicavam”. E então o Papa se pergunta: Tu, em tua família, sabes te comunicar, ou és como aqueles jovens na mesa, cada um com o telefone celular, [que] estão [trocando mensagens] em chats? Naquela mesa parece um silêncio, como se estivessem na Missa ... Mas não se comunicam. Devemos retomar a comunicação em família: os pais, os pais com os filhos, com os avós, mas comunicar-se, com os irmãos, entre eles... Esta é uma tarefa a ser feita hoje, precisamente no dia da Sagrada Família.

“Devemos retomar a comunicação em família: os pais, os pais com os filhos, com os avós, mas comunicar-se, com os irmãos, entre eles... Esta é uma tarefa a ser feita hoje, precisamente no dia da Sagrada Família”

Sagrada Família, modelo para as famílias

“Que a Sagrada Família possa ser modelo para nossas famílias, para que pais e filhos se apoiem mutuamente na adesão ao Evangelho, fundamento da santidade da família.”

Confiemos a Maria "Rainha da família" – disse o Papa ao concluir - todas as famílias do mundo, especialmente aquelas provadas pelo sofrimento, e invoquemos sobre elas a sua materna proteção.

Família, um tesouro a ser protegido

Ao saudar os peregrinos e turistas presentes na Praça São Pedro, o Papa dirigiu uma saudação às famílias: “Hoje dirijo uma saudação especial às famílias aqui presentes e àquelas que participam de casa através da televisão e do rádio. A família é um tesouro precioso: é preciso sempre apoiá-la, protegê-la: em frente!”

Acabar o ano com paz no coração

Antes de despedir-se com o tradicional bom domingo, bom almoço e não se esqueçam de rezar por mim, o Papa fez votos de que todos terminem o ano em paz: Saúdo a todos, e a todos desejo um bom domingo e um final de ano sereno. Terminemos o ano em paz, paz de coração: esses são meus votos a vocês. E em família, se comunicando. Agradeço novamente a vocês pelas felicitações [de Natal] e pelas orações. E por favor continue rezando por mim. Bom almoço e até logo!

Papa Francisco

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12 dez
Vivendo sob a graça divina

 

Aproximamo-nos do fim de mais um ciclo de nossa vida: o fim do ano. Como todos os outros anos, nos colocamos diante de Deus para agradecer e reprogramar as nossas vivências para uma nova etapa de vida. O advento nos enche de paz e de esperança para resgatar o melhor de cada um de nós a partir da graça divina de Deus e do esforço pessoal que nutrimos frente à sua palavra de vida.

Santo Agostinho nos incentivava a este exercício cristão de encontro com Deus e com os irmãos: “Eleve seu coração para que ele não apodreça na terra. Este é conselho d’Aquele que não deseja destruir, mas salvar. Você não se perderá enquanto ele estiver dirigido ao céu sem tirá-lo da terra.” Sermão 60, 7. Assim sendo, ter os nossos sentidos voltados a este Deus que busca realizar a sua graça através de cada um de nós deve ser o motivo de nossa reflexão de advento. Uma reflexão que não pode tirar o foco da “terra”, ou seja, da nossa humanidade e das necessidades de nossos irmãos.

A nossa fraternidade é a expressão maior deste desejo de Deus em encarnar-se no meio de nós. Ele se faz irmão de todos, para que tenhamos os mesmos sentimentos que Ele, e deste modo, possamos construir uma fraternidade que ultrapas se as fes tas e comemorações de fim de ano e se instalando no coração das relações humanas.

“Dediquemos às causas de Deus um amor íntegro e ao próximo um amor vigoroso. Façamos pelos outros o que pudermos. Ofereçamos aos necessitados o que é abundante para nós.” Sermão 41, 9. Este é o convite da espiritualidade de Santo Agostinho: nos dedicar aos nossos irmãos como a expressão da nossa dedicação a Deus. O homem, em sua limitação, reconhece que existem algumas coisas que dependem da graça divina, porém todo o restante que pudermos fazer por nós mesmos, e pelos demais, devemos realizá-lo. Não como obrigação, lamúrias e sacrifícios, mas como filhos livres de Deus que, sob a graça divina, assume a missão de discípulos e missionários de um amor perene que atravessa todo os dias do ano.

Este exercício de fraternidade deve ser realizado nas pequenas coisas da vida, como Agostinho recorda aos seus contemporâneos: “Até mesmo o pobre tem algo que pode dividir com os outros. Que empreste os pés aos aleijados, que outro se torne olhos do cego, um outro visite um doente ou enterre um morto. Essas são coisas que todos podem fazer. Amenize a carga do outro e estará seguindo a Lei de Cristo.” Sermão 47,9 O exercício da caridade não passa somente pelos bens materiais, mas também pelos bens espirituais que vamos construindo ao longo da vida. Esta partilha de bens se constitui no desejo de estar junto a Deus, e que obrigatoriamente, implica também em estar respondendo aos apelas de toda humanidade.

Novamente um ciclo de vida se encerra com o fim deste ano. As festas, celebrações e presentes apenas são reflexos de uma fraternidade que devemos buscar ao longo de um novo ano que se inicia. Lembrar-se que a convivência com os irmãos reflete a nossa inquietude em estar próximos de Deus, e de sua vontade, não pode ser ignorada por nós. Como Agostinho de Hipona no Sermão 184, 3, nos lembra: “Suas graças são perfeitas; e Ele não hesitou em confiá-las a cada um de nós.” E por que não viver sob a graça de Deus, junto aos nossos irmãos, ao longo de todo ano que se aproxima?

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA

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5 dez
Encarnar-se com Deus

O final do ano se aproxima e a vida novamente se renova como oportunidade de transformação para todos nós. Em um ano de muitas adversidades, acreditamos na verdadeira força humanizadora de Deus na figura de um menino deitado na manjedoura. E tudo isso resultou de uma decisão de uma mulher. Uma mulher que foi capaz de olhar para a sua vida e dizer sim a um projeto totalmente fora de seus planos. Ela, cedendo os seus próprios impulsos à vontade do Pai, cumulou a terra de graça e fez com que toda a humanidade se rejubilasse com a presença do próprio Deus feito carne no meio de nós.

Santo Agostinho de Hipona deixa claro a sua satisfação em ver em Maria, o meio concreto pelo qual Deus, Todo-Poderoso, assume uma natureza frágil para resgatar toda a criação através do amor. “Em Cristo, fez-se homem quem fez o homem; nasceu de uma Mãe que Ele criou; foi conduzido por mãos que Ele mesmo formou e nutriu-se de seios que Ele mesmo prodigalizou.” Sermão 188, 2.

Resgate. É incrível pensarmos na condição assumida por Deus para resgatar o gênero humano. O amor de Deus pela sua criação o faz um ser criativo. Ele se reinventa no ventre humano. E se encarna, habitando no meio de nós. Ele se alimenta daquilo que Ele mesmo criou, para significar a vida humana. E ao dignificar a vida humana entrega em nossas mãos a continuidade do resgate de tantas outras vidas. Vidas que vemos abandonadas dormindo nas calçadas das grandes cidades, esquecidas nas mortes fúteis pela ambição dos bens materiais, nas enormes filas em busca de um emprego para sua sobrevivência, negada nos atos discriminatórios de raças, credos, gêneros e orientações de vida e ferida pela ignorância de tantos que não conhecem a tolerância como espaço de encontro das diferenças próprias do seres humanos.

Nesse processo, nos parece formidável percebermos a importância que o simples alcança no processo salvífico. O simples em forma de mulher. Maria reflete a disponibilidade humana diante do transcendente e a capacidade que Deus pôs em cada um de nós de assumirmos o projeto de libertação presente na construção do Reino de Deus. Através do seu exemplo todos nós nos tornamos sinais visíveis da força humana que encontra na esperança de um mundo melhor, o motivo para seguir caminhando e lutando a favor da justiça de uma maioria anônima que geme e sofre a falta de respeito humano.  Anônima como a Menina de Nazaré também o foi, mas que guardava em seu coração, a beleza e o sonho de ver a felicidade se concretizar na presença de seu filho, o Cristo Messias.

Como nos recorda o Sermão 184,1 de Santo Agostinho “uma mulher nos trouxe a vida” e continua a sustentá-la todas as vezes que estamos ao lado da luta pela liberdade e o amor. Maria se faz presença doce e terna na certeza de que somos acolhidos nos braços do Pai independente de nossa condição. A memória do natal nos faz compreender por que Deus quis ter uma mãe e receber o amor materno ao se encarnar no meio de nós. Basta querermos também encarnamos com Ele, por um mundo melhor.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA

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28 nov
Advento: saudades do futuro

Advento é tempo de espera, de vigilância, de preparação e de chegada. É o tempo litúrgico onde o suspiro de expectativa e de esperança não fica sem resposta. O Advento é um brado de esperança.  “O ar está cheio de nossos gritos” (Beckett). A Vinda de Cristo é, portanto, o grande evento que agita os corações, sacode as inteligências, inquieta as pessoas, move as estruturas...Toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente. Quem vive o clima do Advento não é prisioneiro da “cotidianidade”: mantém o olhar fixo no horizonte, para a consolação, para a revelação da glória de Deus. Se o presente é sem sol, ele está seguro da aurora.

 “O futuro é ilusão temperada na fé. Deste, nada se sabe e, no entanto, tudo se espera: o amor ávido, o bem-estar diletante, a irrupção final e feliz do ser que somos e não temos sido” (Frei Betto). Advento é sempre tempo de redescobrir quem somos, o que queremos e para onde vamos. A “mística da gravidez” perpassa todo este tempo, criando em nós uma atitude permanente de espera e fazendo-nos crer na força escondida da vida que continuamente está para nascer. Trata-se de um tempo que alimenta em nós o desejo e a esperança de um “novo parto” da salvação de Deus.

Deus quebrará seu silêncio, a noite escura será iluminada, a primavera substituirá o inverno. O cristão guarda em si o fogo do Espírito Santo, que o mantém sempre vivo, forte, aberto ao futuro. Ele não olha o passado; vê longe e sonha grande. Porque está aberto ao Espírito, não permanece especta-dor e passivo.

Podemos recordar a missão do sentinela, uma das figuras bem conhecidas na história do povo do A.T.  Situado estrategicamente em lugares altos e de amplos horizontes, ele recebe a delicada missão de obser-var, vigiar, discernir e anunciar, para defender a vida do povo .Tal missão implica numa vigilância investigadora do horizonte, onde se fazem perceptíveis os “sinais”, ou até mesmo os indícios de que algo importante para a vida do povo está prestes a acontecer.

Mas não basta captar os sinais. O sentinela deve interpretá-los, quando não são claramente perceptíveis, no horizonte longínquo. Por isso, o sentinela está treinado para “olhar”  a grandes distâncias, para “olhar”  com precisão. Seu “olhar” investigador, aguçado pelo amor ao povo e a fidelidade à missão, está em alerta permanente. “Em meu posto de espreita, meu Senhor, estou firme ao longo do dia,e no meu posto de guarda, permaneço de pé noites inteiras” (Is. 21,8).

O mais específico da função do sentinela é, portanto, a capacidade de “olhar”  corretamente e de anunciar  o que vê, sem se deixar enganar pelas aparências ou por qualquer tipo de engano, sempre em função da defesa daqueles que dependem da sua vigilante perspicácia.

Testemunha fiel, que não se deixa comprar nem subornar, o sentinela é a visibilização da Misericórdia de Javé para com o povo, em meio aos problemas e ameaças da sua história.

Esta atitude de permanente vigilância, de contínua conversão do olhar, é também constitutiva da vocação cristã. Jesus a descreve com uma parábola, na qual a lâmpada acesa é o símbolo do olhar transparente e vigilante que deve caracterizar seus seguidores chamados ao “banquete do Reino”.

Seguidores de Jesus, somos chamados a ser permanentemente, na Igreja e no mundo, sentinelas do Rei-no, capazes de discernir com lucidez e perspicácia as interpelações e os desafios que surgem no hori-zonte da história, e que podem ser ou “boa-nova” para o povo, ou “ameaça e atentado”  à sua vida e dignidade.

Cada momento histórico tem os seus “sinais” que remetem a intervenções misericordiosas de Deus na história dos povos. Devemos, portanto, viver a contínua “conversão do olhar”, que nos permita enxergar e anunciar na arena da história, a presença das bem-aventuranças, a lógica maior do Reino de Deus, os sinais da misericórdia infinita do Pai. A encruzilhada histórica que estamos vivendo parece pedir com mais urgência tal atitude.

Vigiar não significa, portanto, passividade; é ousar renascer, advir, vir-de-novo, recomeçar... Nessa vigilância vislumbramos detalhes decisivos: a vivência da ternura, a reinvenção da vida em cada amanhecer, o criar asas e alçar vôo, o despertar de sonhos, a gratuidade amorosa, a alegria descontrolada...

Espera-se Jesus vivendo os valores que Ele encarnou: o cuidado dos pobres, a misericórdia aos faltosos, a tolerância para com o diferente, o pão de cada dia a todos, o coração dilatado à misteriosa presença do Amor...  “O difícil é esperar. Desespêro é fácil, e é a grande tentação” (Péguy).

Um canto de fé e de esperança segura: esse é o sentido da existência cristã. Com essa espera de Deus, com essa esperança, o cristão pode dar sabor à sua vida, muitas vezes modesta e simples. Ter esperança é, essencialmente, busca incessante, luta por aquilo que não tem lugar agora, mas, acredita-se, terá um dia.

A esperança tem suas raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas. Nos pequenos gestos ela floresce e aponta para um sentido novo. O Advento nos revela segredos futuros: no ponto final seremos todos acolhidos por Aquele que nos quer “eternos”.  Porque Ele é “terno”. E disso temos saudades.

Padre Adroaldo, sj.

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27 nov
Para proteger a vida, é preciso amá-la

A lembrança das etapas na Tailândia e no Japão marcou a Audiência Geral do Papa Francisco na Praça São Pedro. “Para proteger a vida, é preciso amá-la, e hoje a grave ameaça nos países mais desenvolvidos é a perda do sentido de viver”, alertou.

Ao agradecer às autoridades governamentais e eclesiásticas dos dois países, o Pontífice afirmou que a visita aumentou a sua proximidade e o seu afeto por aqueles povos: “Deus os abençoe com abundância de prosperidade e de paz”.

Povo thai: povo do belo sorriso

Começando pela primeira etapa, Francisco recordou que a Tailândia é um antigo Reino que se modernizou fortemente. O povo “thai” é o “povo do belo sorriso. As pessoas ali sorriem. Encorajei o empenho pela harmonia entre os diversos membros da nação e para que o desenvolvimento econômico possa ir em benefício de todos e sejam sanadas as chagas da exploração, especialmente das mulheres e dos menores”. Sobre a religião budista, parte integrante da história e da vida do povo tailandês, o Papa citou o encontro com o Patriarca Supremo e com os líderes ecumênicos e inter-religiosos.

Com a comunidade católica local, o Pontífice viveu momentos de convívio com os sacerdotes, os consagrados, os bispos, os jesuítas. Celebrou duas missas e conheceu de perto o trabalho do Hospital São Luís em prol dos últimos. “Ali experimentamos que na nova família formada por Jesus Cristo existem também os rostos e as vozes do povo Thai”.

Japão: capacidade extraordinária de lutar pela vida

Depois, foi a vez do Japão, cujo lema “Proteger cada vida” acompanhou a sua visita. O país, afirmou, “carrega impressas as chagas do bombardeio atômico e é em todo o mundo porta-voz dos direitos fundamentais à vida e à paz”.

Em Nagasaki e Hiroshima, o Papa rezou, encontrou sobreviventes e familiares das vítimas. “Reiterei a firme condenação das armas nucleares e da hipocrisia de falar de paz construindo e vendendo artilharia bélica.”

Depois daquela tragédia, prosseguiu, o Japão demonstrou uma extraordinária capacidade de lutar pela vida e o fez inclusive recentemente depois do tríplice desastre de 2011: terremoto, tsunami e acidente na central nuclear.

“ Para proteger a vida, é preciso amá-la, e hoje a grave ameaça nos países mais desenvolvidos é a perda do sentido de viver.”

As primeiras vítimas do vazio de sentido, apontou Francisco, são os jovens. Por isso, dedicou um encontro a eles em Tóquio, aos quais encorajou a se opor a toda forma de bullying, e a vencer o medo e o fechamento abrindo-se ao amor de Deus.

“Auspiciei uma cultura de encontro e diálogo, caracterizada pela sabedoria e amplidão de horizonte. Permanecendo fiel aos seus valores religiosos e morais, e aberto à mensagem evangélica, o Japão poderá ser um país condutor por um mundo mais justo e pacífico e pela harmonia entre homem e meio ambiente.”

Queridos irmãos e irmãs, finalizou o Papa, “confiemos à bondade e à providência de Deus os povos da Tailândia e do Japão”.

Fundação Nizami Ganjavi

Antes da Audiência Geral, o Papa Francisco recebeu os membros da Fundação Nizami Ganjavi. Trata-se de uma organização dedicada à memória do grande poeta do Azerbaijão do século XII, com a finalidade de promover a paz no diálogo e no respeito mútuo.

Francisco encorajou a Fundação a prosseguir neste caminho, sobretudo no que diz respeito ao desafio das mudanças climáticas, convencidos de que a cultura do diálogo é a via mestra, a colaboração é a conduta mais eficaz e conhecimento recíproco é o método para crescer na fraternidade entre as pessoas e os povos.

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19 nov
A esperança transforma a história: por uma pastoral mais escatológica

Na atual conjuntura, o sistema econômico e político neoliberal, lançando suas influências sobre a cultura, faz crescer uma contra utopia do status quo que mergulha o ser humano numa apatia generalizada, negando a este qualquer alternativa de transformação da realidade. Não se tem mais utopias e a esperança parece haver morrido. No entanto, ainda é possível encontrar algumas forças utópicas que insistem em resistir e, dentre elas, a própria mensagem cristã, que desde sua perspectiva escatológica, quer ser uma palavra de esperança para o homem e para o mundo. Todavia, historicamente, percebe-se uma série de deslocamentos da reflexão escatológica e a sua estagnação como um mero tratado teológico que versa, muitas vezes fantasiosamente, sobre o fim da pessoa e do mundo. Não obstante, a redescoberta da escatologia pela teologia contemporânea, sobretudo as contribuições de Jürgen Moltmann, em sua obra Teologia da esperança, nos oferecem uma nova compreensão da escatologia cristã, que entendida na ótica de uma esperança ativa, é capaz de iluminar nossa pastoral e lançar nossas comunidades e a cada um de nós em projetos de transformação da história.

Frei Tailer Douglas Ferreira

- Leia o artigo completo aqui 

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8 nov
Papa afirma: prisões são o reflexo da sociedade que prefere reprimir a educar

É mais fácil reprimir do que educar: palavras do Papa Francisco esta manhã, ao receber em audiência, no Vaticano, os participantes do Encontro sobre o Desenvolvimento Humano Integral e a Pastoral Penitenciária Católica.

Em seu discurso, o Pontífice reiterou o conceito de que a situação dos cárceres segue sendo o reflexo da nossa realidade social e consequência de nosso egoísmo e indiferença sintetizados na cultura do descarte.

Muitas vezes, afirmou, a sociedade procura no isolamento e no encarceramento a solução última aos problemas da vida em comunidade. Para isso, com frequência toma medidas desumanas, justificando-as em uma suposta busca do bem e da segurança, destinando grandes quantidades de recursos públicos para reprimir os infratores. Ao invés, deveria investir energias em procurar a promoção do desenvolvimento integral das pessoas para reduzir as circunstâncias que favorecem a realização do crime.

                                                “ É mais fácil reprimir que educar - diria que é mais cômodo também -, negar a injustiça
                                                    presente na sociedade e criar estes espaços para fechar no esquecimento os infratores,
                                                    do que oferecer igualdade de oportunidades de desenvolvimento a todos os cidadãos.”

Superar a estigmatização

Francisco dedicou ampla parte do seu discurso para falar dos processos de reinserção. Muitos desses processos fracassam porque na experiência prisional o detento vive a sua despersonalização. Já uma verdadeira reinserção social começa garantindo oportunidades de desenvolvimento, educação e acesso à saúde.

O Papa convida a superar a estigmatização de quem cometeu um erro.

“ Se esses irmãos e irmãs já descontaram a pena pelo mal cometido, por que se
coloca sobre seus ombros um novo castigo social com a rejeição e a indiferença?
Em muitas ocasiões, esta aversão socialé um motivo a mais para expô-los
a reincidir nas próprias faltas. ”

Horizonte e maternidade

Antes de concluir, Francisco propôs à reflexão dos presentes duas imagens: a do horizonte e a da maternidade.

Para ele, não se pode falar de punição humana sem horizonte. "Até mesmo a punição perpétua - para mim discutível -, tem que ter um horizonte. Ninguém pode mudar de vida se não vê um horizonte."

A segunda imagem remeteu o Papa a Buenos Aires, quando em visita pastoral observava a fila de mães fora do cárcere para visitar os detentos. Elas não sentiam vergonha, porque iam visitar sem filhos. "Que a Igreja aprenda a maternidade dessas mulheres e aprenda os gestos de maternidade para com os presos."

Silêncio generoso

Por fim, o Papa dirigiu palavras de encorajamento aos agentes de pastoral.

“Peço a Deus por cada pessoa que, a partir do silêncio generoso, serve a estes irmãos, reconhecendo neles o Senhor. Congratulo-me por todas as iniciativas com as quais assistem também pastoralmente às famílias dos detentos e as acompanham neste período de grande provação, para que o Senhor abençoe a todos.”

As Marias do nosso tempo

A Pastoral Carcerária Nacional participou do encontro com o Papa Francisco. O Padre Gianfranco Graziola comentou sobre a mensagem do Pontífice aos presentes, em especial, sobre "as Marias de nosso tempo, que ficam perto da cruz, e dos Cristos crucificados de nossa humanidade":

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5 nov
Promoção vocacional e formação

“Vem e segue-me”. (Mt 19,21)

A origem da vocação encontra-se na iniciativa Divina.
Deus chama, com sua graça, aqueles que Ele quer,
 para uma missão ou serviço.(III Congresso Vocacional do Brasil)

 

A Pastoral Vocacional e a formação para a Vida Religiosa e Sacerdotal tornaram-se instrumentos de grande valor para a Igreja nas últimas décadas, principalmente após o Concílio Vaticano II, quando, pelo impulso do Espírito Santo, a Igreja, aberta ao mundo em suas transformações, foi assumindo um novo ardor missionário e evangelizador. Já em 1964, o Papa Paulo VI instituiu o Dia Mundial de Oração Pelas Vocações. No Brasil, a missão da Igreja após o Vaticano II, com sua voz profética nos tempos da ditadura militar (1964-1985), sua presença esperançosa no meio dos pobres e excluídos, sua opção preferencial pelos jovens à luz da Conferência de Puebla, sua preocupação em organizar as comunidades de base (CEBs), possibilitando que a Palavra de Deus iluminasse a realidade sofrida de nosso povo e ajudasse a organização popular por meio de movimentos sociais e eclesiais na busca de seus direitos. Neste contexto pós Concilio Vaticano II, muitos religiosos(as), sacerdotes, bispos, missionários(as) e evangelizadores leigos se tornaram um exemplo de compromisso com a construção do Reino de Deus, no aqui e agora de nossa história, tornando-se referência vocacional de seguimento a Jesus Cristo.

Neste contexto, a Pastoral Vocacional foi alcançando um lugar de destaque em nossa realidade eclesial e pastoral. Recordemos que no ano de 1983 celebrou­-se em todos os cantos e recantos da Igreja no Brasil, o primeiro ano vocacional. Quem não se recorda ou nunca rezou a oração vocacional criada para aquele ano: “Senhor da Messe e Pastor do Rebanho, faz ressoar em nossos ouvidos teu forte e suave convite: “Vem e segue-me”? Posterior a este período, seguiu-se uma etapa avaliada como sendo de crise vocacional, com significativa diminuição do número de sacerdotes e religiosos(as) e diminuição da vinda de missionários estrangeiros, fruto das mudanças nos diversos contextos da sociedade e da cultura pós-moderna. A crise vocacional, iniciada neste período, trouxe o fechamento de muitas casas e obras mantidas por Ordens e Congregações. Por outro lado, houve uma recuperação no número de vocações masculinas nos países do hemisfério sul, principalmente nos continentes africano e asiático, principalmente as vocações diocesanas. A crise se fortaleceu e é mais sentida, em nossos dias, no hemisfério norte (Europa, EUA, Canadá...), naqueles países tidos anteriormente como grandes celeiros de vocações e de tradição religiosa, de onde partiram muitos missionários(as) em tempos passados.

Vinte anos depois do primeiro ano dedicado às vocações, em 2003, celebrou-se o Segundo Ano Vocacional no Brasil, com o tema: “Batismo, fonte de todas as vocações”, e o lema: “Avancem para águas mais profundas” (Lc 5,4). Nós Agostinianos da agora nova Província Nossa Senhora da Consolação do Brasil (naquele momento, Vicariato Nossa Senhora da Consolação), vivemos intensamente esses momentos da caminhada da Igreja no Brasil e na América Latina após o Vaticano II, sempre identificados com as Diretrizes da Evangelização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com as orientações da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e da Conferência dos Religiosos da América Latina (CLAR). Durante este período, alguns de nossos Frades estiveram inseridos em Comissões e Diretorias destes organismos da Igreja, demonstrando a comunhão e a sintonia com os novos rumos da Evangelização. Em outros momentos desta caminhada, nosso processo formativo e o trabalho na promoção e animação de novas vocações esteve integrado com outros grupos de Agostinianos e Agostinianas do Brasil. Realizamos experiências de apoio e intercâmbio com outros grupos agostinianos na América Latina, em especial, por cerca de quinze anos, apoiamos o trabalho vocacional e formativo no Vicariato da Bolívia, estivemos por oito anos apoiando a nova presença agostiniana em Cuba e recentemente colaborando num projeto comum de formação no Peru.

Nos últimos anos, o trabalho da Pastoral Vocacional de nossa Província ganhou força e estabilidade, contando com um maior apoio institucional e investimentos econômicos, pedagógicos e metodológicos, assim como, com uma colaboração e envolvimento mais efetivo e constante de nossos formandos e religiosos. Fruto deste trabalho e do testemunho de vida fraterna e comunitária, da acolhida, criatividade, dedicação e zelo para com aqueles que o Senhor da Messe nos confiou, desde o ano 2008 houve um aumento no número de vocacionados acompanhados e de ingresso de candidatos em nossa etapa inicial de formação. Foi possível acompanhar jovens de regiões mais distantes do país e inclusive realizar anualmente encontros na região nordeste e visitar jovens e promover atividades em outras regiões. O ano de 2010 foi um marco para a formação, quando chegamos a ter quarenta e oito jovens em nossas casas de formação. Abriu-se uma nova casa de formação em Belo Horizonte, a Fraternidade Santa Mônica, que acolheu a etapa do Aspirantado até o ano de 2017. Atualmente, a Fraternidade Agostiniana, no Bairro do Barreiro, em Belo Horizonte, é a casa de formação que recebe os jovens para o Aspirantado, Postulantado e Pré-noviciado (Estudos de Filosofia).

Após dez anos de intercambio e apoio de nosso Vicariato ao Teologado de Cochabamba - Bolívia, em 2011 retornamos para a cidade de Diadema, na região metropolitana de São Paulo, onde de 1988 a 1998, mantivemos nosso Teologado, na Fraternidade Santo Dias, região periférica e de grande número de operários. Nos anos de 2009 e 2010 o Teologado esteve provisoriamente na cidade de São Paulo. A Etapa do Noviciado, após quase três décadas funcionando sequencialmente em Bragança Paulista (SP), em 2015 passou a ser realizada em conjunto com outros países da América Latina, sendo a sede na cidade de Lima - Peru, onde continua até os dias de hoje, sendo que o primeiro mestre de noviços deste projeto comum de formação era de nosso Vicariato.

Sabemos que o investimento na formação é um caminho importante para fortalecer nossa presença hoje e no futuro na Igreja do Brasil, após estes noventa anos de caminhada e história. Por isso, olhando para o futuro, atentos aos sinais dos tempos e às mudanças na cultura e na Igreja, o Capítulo Vicarial realizado em dezembro de 2018, criou o Secretariado de Animação Vocacional e Juvenil, estruturando e dando novo impulso e dinamismo ao trabalho com as juventudes e as vocações.

O ano de 2019 se tornou um marco histórico de nossa presença no Brasil, pois ao celebrarmos noventa anos da chegada dos Agostinianos do Escorial (Espanha), o Capítulo Geral Ordinário celebrado em Roma, no dia 16 de setembro elevou nosso Vicariato à categoria de Província, dando novo vigor e ardor missionário e fortalecendo nossa responsabilidade e compromisso na formação de futuros religiosos que promoverão o carisma e a espiritualidade agostiniana no Brasil e continuarão a obra evangelizadora, educacional e assistencial herdada de tantos religiosos, desde os pioneiros que chegaram a partir de 1929 e não tiveram medo de arriscar suas vidas e se colocaram à serviço da Igreja no Brasil, até os atuais religiosos que com dedicação e zelo apostólico e o testemunho de fraternidade, possibilitaram a credibilidade, confiança e reconhecimento que conduziu à criação da Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil.   

Somos conscientes dos grandes desafios que se apresentam para o trabalho da Evangelização e para a Formação de novos religiosos e sacerdotes. A mudança de época que estamos vivendo, com grandes transformações na cultura, na religião, nas instituições que antes eram tidas como sólidas: Família, Igreja, Política, Sociedade, bem como uma mudança de paradigma relacional com o advento e fortalecimento das tecnologias de informação, mídias sociais e meios de comunicação globalizados. Cientes de que o Senhor chama os que Ele quer e de onde quer, neste novo contexto da realidade humana, social, religiosa e cultural que vivemos, é necessário uma boa preparação para ler os sinais dos tempos, uma centralidade e um cuidado da vida espiritual, um testemunho de coerência e fidelidade vocacional, uma vivência dos valores do  Reino de Deus, um compromisso com os grandes temas que atingem a humanidade, entre eles a desigualdade social e o cuidado dos mais pobres e vulneráveis, o cuidado da Casa Comum: meio ambiente-natureza, a promoção da Justiça e da Paz, o diálogo com a sociedade e as culturas, entre outros. Nosso apostolado e missão, abertos aos novos sopros do Espírito, continue colaborando na promoção de muitas vocações para a construção de uma sociedade mais justa, fraterna, solidária, inclusiva e acolhedora, como reflexo da presença do Reino no meio de nós.

Recentemente (setembro de 2019), a Igreja do Brasil realizou o 4º. Congresso Nacional da Vocacional, buscando refletir sobre o tema das vocações em nossa realidade eclesial e situar as vocações na pastoral de conjunto da Igreja. A Igreja entende que os novos contextos sócio-eclesiais exigem ousadia na apresentação de propostas vocacionais e a promoção, com urgência, de uma cultura vocacional. O Congresso Vocacional buscou provocar a necessidade de se refletir sobre o sentido último da vida, sobre a necessidade da oração em prol das vocações e acima de tudo expandir o tema vocacional para todos os âmbitos eclesiais e sociais, principalmente sobre a arte do discernimento vocacional tão urgente e necessário no apostolado da Igreja.

Que o Espírito Santo torne fecundo o trabalho vocacional e formativo de nossa Província e ilumine a nova geração de consagrados e consagradas para que colaborem, através da mística e da profecia, para que as pessoas experimentem o amor de Deus e a vida em plenitude pela qual Jesus Cristo entregou sua vida.

 

Frei Márcio Antonio Vidal de Negreiros - OSA

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28 out
A atualidade de Santo Agostinho: uma perspectiva teológico-pastoral

Resumo

Este artigo pretende abordar a atualidade de Santo Agostinho a partir de uma perspectiva teológico-pastoral. O pensamento e a espiritualidade de Santo Agostinho (354-430) sobreviveram na cultura ocidental como uma das contribuições mais vigorosas do cristianismo e sua experiência de vida, bem como seu legado espiritual, filosófico e teológico trazem profundas intuições na busca de resposta às grandes questões dos homens e mulheres de todos os tempos. Sua conversão é um “evento hermenêutico” que se constitui como chave de leitura para a compreensão de sua vida e sua obra. Sua teologia foi-se construindo na sua experiência de pastor por mais de quarenta anos em Hipona (na atual Argélia), norte da África. Destaca-se aí sua contribuição como “pacificista”, com uma prática que foi tematizada tanto em suas obras formais como nas suas pregações e correspondência. A recente descoberta de novas cartas e sermões de Santo Agostinho revela um lado pouco conhecido do Doctor Gratiae. O aspecto político de seu pensamento, uma das abordagens mais atuais da pesquisa sobre suas obras, permite-nos uma aproximação ao tema
da Campanha da Fraternidade de 2009, “Fraternidade e Segurança Pública”, lançada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Palavras-chave: Espiritualidade; Conversão; Jesus Cristo; Pastoral; Paz.

Autor: Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA

- Leia o artigo completo aqui:

atualidade-de-santo-agostinho.pdf

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21 out
Pacto das Catacumbas pela Casa Comum

Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana

Nós, participantes do Sínodo Pan-amazônico, partilhamos a alegria de habitar em meio a numerosos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, migrantes, comunidades na periferia das cidades desse imenso território do Planeta. Com eles temos experimentado a força do Evangelho que atua nos pequenos. O encontro com esses povos nos interpela e nos convida a uma vida mais simples de partilha e gratuidade. Marcados pela escuta dos seus clamores e lágrimas, acolhemos de coração as palavras do Papa Francisco: “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”[1].

Evocamos com gratidão aqueles bispos que, nas Catacumbas de Santa Domitila, ao término do Concílio Vaticano II, firmaram o Pacto por uma Igreja servidora e pobre[2]. Recordamos com veneração todos os mártires membros das comunidades eclesiais de base, de pastorais e movimentos populares; lideranças indígenas, missionárias e missionários, leigas e leigos, padres e bispos, que derramaram seu sangue, por causa desta opção pelos pobres, por defender a vida e lutar pela salvaguarda da nossa Casa Comum[3]. À gratidão por seu heroísmo unimos nossa decisão de continuar sua luta com firmeza e coragem. É um sentimento de urgência que se impõe ante as agressões que hoje devastam o território amazônico, ameaçado pela violência de um sistema econômico predatório e consumista.

Diante da Trindade Santa, de nossas Igrejas particulares, das Igrejas da América Latina e do Caribe e daquelas que nos são solidárias na África, Ásia, Oceania, Europa e no norte do continente americano, aos pés dos apóstolos Pedro e Paulo e da multidão dos mártires de Roma, da América Latina e em especial da nossa Amazônia, em profunda comunhão com o sucessor de Pedro, invocamos o Espírito Santo, e nos comprometemos pessoal e comunitariamente com o que se segue:

1. Assumir, diante da extrema ameaça do aquecimento global e da exaustão dos recursos naturais, o compromisso de defender em nossos territórios e com nossas atitudes a floresta amazônica em pé. Dela vêm as dádivas das águas para grande parte do território sul-americano, a contribuição para o ciclo do carbono e regulação do clima global, uma incalculável biodiversidade e rica socio diversidade para a humanidade e a Terra inteira.

2. Reconhecer que não somos donos da mãe terra, mas seus filhos e filhas, formados do pó da terra (Gn 2, 7-8)[4], hóspedes e peregrinos (1 Pd 1, 17b e 1 Pd 2, 11)[5], chamados a ser seus zelosos cuidadores e cuidadoras (Gn 1, 26)[6]. Para tanto, comprometemo-nos com uma ecologia integral, na qual tudo está interligado, o gênero humano e toda a criação porque a totalidade dos seres são filhas e filhos da terra e sobre eles paira o Espírito de Deus (Gn 1, 2).

3. Acolher e renovar a cada dia a aliança de Deus com todo o criado: “De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco, aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra que convosco saíram da arca (Gn 9, 9-10 e Gn 9, 12-17[7]).

4. Renovar em nossas igrejas a opção preferencial pelos pobres, em especial pelos povos originários, e junto com eles garantir o direito de serem protagonistas na sociedade e na Igreja. Ajudá-los a preservar suas terras, culturas, línguas, histórias, identidades e espiritualidades. Crescer na consciência de que estas devem ser respeitadas local e globalmente e, consequentemente favorecer, por todos os meios ao nosso alcance, que sejam acolhidas em pé de igualdade no concerto mundial dos demais povos e culturas.

5. Abandonar, como decorrência, em nossas paróquias, dioceses e grupos toda espécie de mentalidade e postura colonialista, acolhendo e valorizando a diversidade cultural, étnica e linguística num diálogo respeitoso com todas as tradições espirituais.

6. Denunciar todas as formas de violência e agressão à autonomia e direitos dos povos originários, à sua identidade, aos seus territórios e às suas formas de vida.

7. Anunciar a novidade libertadora do evangelho de Jesus Cristo, na acolhida ao outro e ao diferente, como sucedeu com Pedro na casa de Cornélio: “Vós bem sabeis que a um judeu é proibido relacionar-se com um estrangeiro ou entrar em sua casa. Ora, Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro” (At 10, 28)[8].

8. Caminhar ecumenicamente com outras comunidades cristãs no anúncio inculturado e libertador do evangelho, e com as outras religiões e pessoas de boa vontade, na solidariedade com os povos originários, com os pobres e pequenos, na defesa dos seus direitos e na preservação da Casa Comum.

9. Instaurar em nossas igrejas particulares um estilo de vida sinodal, onde representantes dos povos originários, missionários e missionárias, leigos e leigas, em razão do seu batismo, e em comunhão com seus pastores, tenham voz e voto nas assembleias diocesanas, nos conselhos pastorais e paroquiais, enfim em tudo que lhes compete no governo das comunidades.

10. Empenhar-nos no urgente reconhecimento dos ministérios eclesiais já existentes nas comunidades, exercidos por agentes de pastoral, catequistas indígenas, ministras e ministros e da Palavra, valorizando em especial seu cuidado em relação aos mais vulneráveis e excluídos.

11. Tornar efetiva nas comunidades a nós confiadas a passagem de uma pastoral de visita a uma pastoral de presença, assegurando que o direito à Mesa da Palavra e à Mesa de Eucaristia se torne efetivo em todas as comunidades.

12. Reconhecer os serviços e a real diaconia do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazônia e procurar consolidá-los com um ministério adequado de mulheres dirigentes de comunidade.

13. Buscar novos caminhos de ação pastoral nas cidades onde atuamos, com protagonismo de leigos e jovens, com atenção às suas periferias e aos migrantes, aos trabalhadores e aos desempregados, aos estudantes, educadores, pesquisadores e ao mundo da cultura e da comunicação[9].

14. Assumir diante da avalanche do consumismo um estilo de vida alegremente sóbrio, simples e solidário com os que pouco ou nada tem; reduzir a produção de lixo e o uso de plásticos, favorecer a produção e comercialização de produtos agroecológicos, utilizar sempre que possível o transporte público.

15. Colocar-nos ao lado dos que são perseguidos pelo profético serviço de denúncia e reparação de injustiças, de defesa da terra e dos direitos dos pequenos, de acolhida e apoio a migrantes e refugiados. Cultivar amizades verdadeiras com os pobres, visitar as pessoas mais simples e os enfermos, exercitando o ministério da escuta, da consolação e do apoio que trazem alento e renovam a esperança. Conscientes de nossas fragilidades, de nossa pobreza e pequenez diante de tão grandes e graves desafios, confiamo-nos à oração da Igreja. Que sobretudo nossas Comunidades Eclesiais nos socorram com sua intercessão, afeto no Senhor e, sempre que necessário, com a caridade da correção fraterna.

Acolhemos de coração aberto o convite do Cardeal Hummes para nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo nestes dias do Sínodo e no retorno às nossas igrejas:

“Deixem-se envolver no manto da Mãe de Deus e Rainha da Amazônia. Não deixemos que nos vença a auto-referencialidade, mas sim a misericórdia diante do grito dos pobres e da terra. Será necessária muita oração, meditação e discernimento, além de uma prática concreta de comunhão eclesial e espírito sinodal. Este sínodo é como uma mesa que Deus preparou para os seus pobres e nos pede a nós que sejamos aqueles que servem à mesa”[10].

Celebramos esta Eucaristia do Pacto como “um ato de amor cósmico. “Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja de aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo”. A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico “a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador”. “Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira”.[11]

Catacumbas de Santa Domitila
Roma, 20 de outubro de 2019

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18 out
O perdão é o homem em relação

O mundo atual é feito de relações que, muitas vezes, não possuem respaldo concreto na solidariedade que deve haver entre os seres humanos. As marcas destes desafetos gerados por estas relações podem ser vistas em nossa sociedade através de doenças, guerras, falta de trabalho, fome e tantas outras mazelas sociais. Na verdade, é a dignidade humana que se encontra ferida pela falta de um sentimento coletivo, muitas vezes lembrado, mas poucas vezes praticado, que é o perdão.

Agostinho de Hipona nos lembra muito bem que “Aquele que ofendeu a uma pessoa atraiu para si a sua perdição, pois não escutou a voz do teu Senhor.” (Sermão 114, 2). A raiz das nossas relações está no amor. Amor que devemos nutrir por todos e que verdadeiramente o temos se colocamos o mandamento de Deus em prática, através de nossas ações para com os nossos semelhantes. A falta de perdão é um sinal de que não conseguimos colocar esta verdade em prática. A falta de perdão se sobrepõe à nossa oração, pois desta forma o que falamos em nosso íntimo com Deus não conseguimos vivê-lo com o nosso próximo. “Perdoame como eu perdôo. É isto que diz na oração do Pai Nosso. Esta é a regra. Se queres que teu pedido de perdão seja acolhido por Deus, perdoa tu ao que te pede perdão.” (Carta 171 A, 1). Este descompasso entre a teoria e a prática de nossa fé causa todo o tipo de desarmonia em nossas relações interpessoais e que atingem as nossas famílias, comunidades e sociedades.

Em sua atividade pastoral como Bispo, Agostinho, já percebia que a dimensão do perdão é colocada como algo pequeno e justificável, ou seja, se põe um grande relevo sobre a ofensa muito mais do que a conseqüência do ato de não perdoar no seio da comunidade dos homens. “Não digas: ‘É uma coisa pequena, e logo se remedia’. Sem perdão nada e ninguém se remediarão sozinhos” (Sermão 114, 5). O perdão não vivenciado gera contenda. O desafeto entre irmãos produz mal estar no meio da comunidade e faz com que todo o corpo de Cristo, que é a Igreja, também fique enfermo. Esperar que o outro venha pedir perdão, também, não deixa de ser uma forma de banalizar os efeitos da falta de perdão. As inimizades e os rancores machucam o coração do cristão, paralisam a suas ações no mundo e não o deixam testemunhar a ressurreição de Cristo, que nada mais é do que transformar os momentos de morte em vida em plenitude a toda humanidade. “Não retenha em teu interior inimizade contra ninguém, porque maior é o mal que estes rancores causam em teu coração.” (Comentário a São João 1, 9).

O perdão é o homem em relação. Em relação com os outros, com a natureza e com Deus. “Eu te peço perdão de meus pecados e Tu queres que haja alguém a quem eu possa perdoar.” (Sermão 82, 4). Agostinho já intuía esta verdade em seu coração. Que além do perdão ajudar a libertar o coração do cristão, sanava o corpo da Igreja e restabelecia a harmonia das relações no mundo, porque a dinâmica do perdão evoca a presença de Deus àqueles que são atingidos pela graça do perdão. Basta, a cada um de nós tomar a iniciativa do perdão. Por que esperar que o outro venha pedir perdão? Por que se fazer de vítimas ou de indiferentes nas relações com os demais? Por que adiar a graça que Deus quer derramar sobre nós? “Eu quero ser perdoado. Então perdoarei. Esquecerei as ofensas que me foram proferidas e serão esquecidos os meus delitos. Quero receber. Então, darei. Somente assim, me será dado.” (Sermão 83, 2)

*Frei Arthur Vianna Ferreira, osa.
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4 out
Sínodo da Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia integral

Dom Romualdo Matias Kujawski
Bispo de Porto Nacional e Membro Sinodal

 

“Com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto!” (Rm 8, 22)

Durante os dias compreendidos entre 06 e 27 de Outubro de 2019 realizar-se-á, no Vaticano, o Sínodo que congregará os Bispos da Região Pan-Amazônica, para refletir e partilhar o seguinte tema: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. O documento de trabalho deste Sínodo: “Instrumentum Laboris” foi publicado no dia 17 de Junho deste ano. O texto é composto por 147 pontos divididos em 21 capítulos separados por três partes: A primeira parte se titulada “a voz da Amazônia” e tem a finalidade de apresentar a realidade do território e de seus povos. Na segunda parte, intitulada “Ecologia integral: o clamor da terra e dos pobres,” adverte-se sobre a “destruição extrativista”, abordam questões relevantes como “os povos indígenas em isolamento voluntário (PIAV)” e outros fenômenos de interesse mundial, como “a migração”, “a urbanização”, “a família e a comunidade”, “a saúde”, “a educação integral” e “a corrupção”. Na terceira e última parte do documento, encontramos os escritos sobre os desafios e esperanças da região e incentiva a Igreja a ter um papel “profético na Amazônia”, apresentando “a problemática eclesiológica e pastoral” da região.

Seguem abaixo algumas perguntas e respostas sobre esse tema, que poderão dirimir certas dúvidas que possam existir:

Primeiramente, o que é o Sínodo?

A palavra “sínodo” vem de duas palavras gregas: syn”, que significa “juntos”, e hodos”, que significa “estrada ou caminho”. Logo, o Sínodo dos Bispos pode ser definido como uma reunião do episcopado da Igreja Católica com o Papa para discutir algum assunto em especial, auxiliando o Santo Padre no governo da Igreja.

Quais os assuntos serão tratados no Sínodo?

No centro das deliberações será a situação dos povos da Amazônia. O “Instrumentum Laboris” destaca os problemas, que surgem da exploração descontrolada da riqueza natural da Amazônia e afetam a ecologia da Região. Entre os grandes problemas destacam-se os desmatamentos, garimpos descontrolados, grandes projetos hidroelétricos, monoculturas e desrespeito às tribos indígenas, suas culturas e territórios de domínio.

Entre os temas eclesiásticos encontram-se as questões das tradições locais e assistência pastoral no vasto território da Amazônia. Outro ponto, até bastante polêmico é o estudo da possibilidade de, na falta das vocações sacerdotais serem ordenados homens casados, de boa índole moral e provenientes das comunidades locais. Não se pode esquecer que a Igreja sempre cresce e se organiza a partir da Eucaristia. Também devem ser repensadas as funções dos leigos como lideranças nas comunidades, além de ampliar as tarefas destinadas às mulheres.

Quem participará do Sínodo?

Os Bispos Diocesanos de todas as nove províncias eclesiásticas da Região Pan-amazônica, incluindo Bolívia, Brasil, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guianas e Suriname. Também participarão alguns membros dos dicastérios da Cúria Romana, membros da eclesial rede Pan-amazônica (REPAM) e representantes do Conselho que prepararam o Sínodo.

Além disso, estarão presentes alguns religiosos que se envolvem pastoralmente na Amazônia, escolhidos pelos Superiores Gerais. O Papa Francisco também nomeou alguns peritos, leigos e eclesiásticos, que ajudarão na redação dos documentos do Sínodo. Terão direito à voz os representantes do “grito do povo” amazonense. O quadro então se completa com os observadores, os delegados das Igrejas Cristas, que atuam na Amazônia e representantes das Instituições e religiões não cristas.

Como trabalhará o Sínodo?

Estão previstos debates, plenárias com a presença do Papa, além dos trabalhos realizados em pequenos grupos de articulação em relação aos assuntos. A tarefa importante de sintetizar os debates cabe ao relator geral do Sínodo, Cardeal Cláudio Humes (Brasil), que é também Presidente da REPAM. Ele terá dois secretários especiais: Dom David Martinez de Aguirre Guinea (Vigário Apostólico de Puerto Maldonado – Peru) e Frei Michael Czerny da Cúria Romana (Dicastério dos Migrantes, Refugiados e Desenvolvimento Integral da Pessoa Humana). Um grande conselheiro que também participará será D. Erwin Kreuter, Bispo Emérito da Prelazia do Xingu do Araguaia (Brasil).

Porque este Sínodo é tão importante para a Igreja?

A Região da Amazônia é chamada de “pulmões verdes do mundo” e por isso é considerado importante em sua influência para o clima de todo o planeta. Assim sendo, todos os abusos ecológicos na Amazônia influenciam negativamente para toda humanidade.

No contexto eclesial, as novas propostas pastorais no território amazonense podem tornar-se modelos para outras Igrejas locais. Com ressalvas é claro, porque não se poderão copiar soluções pastorais na Amazônia em toda a Igreja.

O que acontecerá com os resultados do Sínodo?

Na última semana, os membros do Sínodo trabalharão a redação final do documento, que será entregue ao Santo Padre, o Papa Francisco. Este documento não causará nenhum efeito jurídico. Caberá ao Papa a publicação do documento final, na forma de Exortação Apostólica Pós-sinodal.

Contamos com vossas orações.

 

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26 set
O perdão mostra a qualidade da nossa fé

* Papa Francisco

Estevão «repleto do Espírito Santo» entre  diakonia e martyria. Este foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (25/09), realizada na Praça São Pedro, com milhares de fiéis e peregrinos.

O Pontífice deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre o Livro dos Atos dos Apóstolos para “seguir a viagem do Evangelho no mundo”. O evangelista Lucas mostra, com realismo, a fecundidade dessa viagem e o surgimento de alguns problemas na comunidade cristã.

Como harmonizar as diferenças que existem dentro da comunidade cristã sem que ocorram contrastes e divisões?

“A comunidade não acolhia somente os judeus, mas também os gregos, ou seja, pessoas provenientes da diáspora, não judeus, com suas culturas e sensibilidades. Também de outra religião. Nós, hoje, dizemos “pagãos”. Eles eram acolhidos. Essa coexistência determina equilíbrios frágeis e precários, e diante das dificuldades emerge o “joio”. E qual é o joio que destrói a comunidade? O joio da murmuração, o joio da fofoca. Os gregos murmuram pela falta de atenção da comunidade em relação às viúvas.”

“Como os Apóstolos agem diante desse problema?”, perguntou o Papa.

Oração e pregação da Palavra de Deus

“Iniciam um processo de discernimento que consiste em considerar bem as dificuldades e procurar soluções em conjunto. Encontram uma saída ao dividir as tarefas por um crescimento sereno de todo o corpo eclesial e para não transcurar a “corrida” do Evangelho e a atenção aos membros mais pobres.”

Segundo Francisco, “os Apóstolos estão cada vez mais conscientes de que a sua vocação principal é a oração e a pregação da Palavra de Deus: rezar e anunciar o Evangelho, e resolvem o problema instituindo um grupo de «sete homens de boa fama, repletos do Espírito Santo e de sabedoria», que depois de receberem a imposição das mãos, se encarregam de servir às mesas. Os diáconos são criados para isso, para o serviço. O diácono, na Igreja, não é um segundo sacerdote. Não, não. É outra coisa”.

O diácono não é para o altar, não: é para o serviço. Ele é o guardião do serviço na Igreja. Quando um diácono gosta muito de ir para o altar, ele está errado. Este não é o seu caminho. Essa harmonia entre serviço à Palavra e serviço à caridade é um fermento que faz crescer o corpo eclesial.

“Criam sete diáconos”, frisou o Papa, e dentre eles destacam-se Estevão e Felipe. “Estevão evangeliza com força parresia (audácia), mas sua palavra encontra resistências. Não encontrando outra maneira de fazê-lo desistir, os seus adversários escolhem a solução mais mesquinha para aniquilar um ser humano: ou seja, a calúnia ou falso testemunho. Nós sabemos que a calúnia mata. Sempre.”

Calúnia, câncer diabólico

“ Esse “câncer diabólico” que é a calúnia, que nasce do desejo de destruir a reputação de uma pessoa, também agride o resto do corpo eclesial e o danifica seriamente quando, devido a interesses mesquinhos ou para encobrir as próprias falhas, se aliam para difamar alguém. ”

“Levado ao Sinédrio e acusado de falso testemunho, fizeram o mesmo com Jesus e o mesmo farão com todos os mártires: falsos testemunhos, calúnias”, frisou o Papa.

Estêvão proclama uma releitura da história sagrada centrada em Cristo, para se defender.

“A Páscoa de Jesus morto e ressuscitado é a chave de toda a história da Aliança. Estêvão denuncia corajosamente a hipocrisia com a qual os profetas e o próprio Cristo foram tratados. «A qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram? Eles mataram aqueles que anunciavam a vinda do Justo, do qual agora vocês se tornaram traidores e assassinos». Não usa meio termo, Estêvão fala claro, diz a verdade. Isso causa a reação violenta dos ouvintes, e Estêvão é condenado à morte, à lapidação”, sublinhou o Pontífice. Ele coloca “a sua vida nas mãos do Senhor e a sua oração é linda naquele momento: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito» e morre como filho de Deus perdoando: «Senhor, não os condenes por este pecado.»”

A Igreja de hoje é rica de mártires

Segundo Francisco, “essas palavras de Estevão nos ensinam que não são os bonitos discursos que revelam a nossa identidade como filhos de Deus, mas apenas o abandono da vida nas mãos do Pai e o perdão aos que nos ofendem nos mostram a qualidade da nossa fé”.

“A Igreja de hoje é rica de mártires – hoje existem mais mártires do que no tempo do início da Igreja, e os mártires estão por toda parte; a Igreja é irrigada pelo seu sangue que é a “semente de novos cristãos” e garante crescimento e fecundidade ao povo de Deus. Os mártires não são “santinhos”, mas homens e mulheres de carne e osso que, como diz o Apocalipse, “lavaram suas vestes, tornando-as brancas no sangue do Cordeiro”. Eles são os verdadeiros vencedores”, concluiu o Papa.

 

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23 set
Convivência como forma de educar socialmente para os direitos humanos

Frei Arthur Vianna Ferreira*

A Pedagogia Social, como campo teórico é algo que se faz na construção diária de educadores sociais que organizam práticas socioeducativas que proporcionem os indivíduos a transformarem, da melhor maneira possível, as realidades sociais vividas na vulnerabilidade de seus grupos sociais.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 proporciona uma reflexão positiva para as práticas socioeducativas cotidianas desses educadores sociais. Os conteúdos consensuados e expostos nesse documento passam a ser uma possibilidade de início de organização de conteúdos mínimos para o ambiente educacional não escolar e práticas socioeducativas realizadas em instituições sociais, públicas e privadas, que promovem relações humanas dignas, que respeitem as diversas manifestações da humanidade no interior dos grupos sociais.

No Brasil, a educação nos valores expostos pelos Direitos Humanos é legitimada através do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos de 2007 (PNEDH-2007) ainda pouco divulgado e trabalhado em sua integralidade entre os próprios equipamentos sociais responsáveis por essas práticas socioeducativas. Vale ressaltar, que esse documento apresenta um capítulo específico para as práticas socioeducativas em espaços não escolares e/ou não formal e que muitas vezes não são devidamente aprofundados na formação inicial e/ou continuada dos profissionais da educação no país.

A Pedagogia da Convivência, proposta por Jares (2005) como um campo teórico-prático de atuação para educadores sociais, se apresenta como uma reflexão relevante sobre a organização de um conteúdo básico e inicial a ser trabalhado pelos profissionais da educação com os jovens e adultos dentro e fora do ambiente escolar. A partir de elementos retirados dos Direitos Humanos de 1948, a pedagogia da convivência propõe uma metodologia que faça os responsáveis pelas práticas socioeducativas a pensarem sobre os conteúdos a serem trabalhados com as camadas empobrecidas e os temas mais relevantes das práticas de educação social.

Jares (2004) afirma que os conteúdos propostos pelos Direitos Humanos são fundamentais para pensarmos em uma convivência pedagógica que leve os indivíduos às práticas educativas que suscitem relações sociais saudáveis em situações de extrema diferença entre os indivíduos, os seus grupos sociais e os seus interesses pessoais e coletivos. Segundo o autor, a educação para e a partir dos direitos humanos deve promover uma educação para a verdade e a convivência pacífica entre os seres humanos (o que não excluiu os processos de conflitos e/ou limitações oriundos das relações sociais).

Assim, podemos inferir que para Jares (2005; 2007) os direitos humanos se constituem em um campo axiológico da aprendizagem que está alicerçado no valor à vida e que deve ser/fazer parte do ensino-aprendizagem nos espaços não escolares. Esse é o maior bem que emanam todos os tipos de educação cujo objetivo é educar o ser humano para estar no mundo. E, por isso, independente dos sujeitos sociais ou da situação de vulnerabilidade social em que os grupos se apresentam, o educador social deve levar em consideração esse valor social em todo o seu planejamento socioeducativo.

Contudo, o valor à vida, como conteúdo basilar de construção de práticas socioeducativas, se desdobra em três aspectos educacionais importantes para o bom êxito do desenvolvimento de práticas de convivência na educação em espaços não escolares: a educação para a solidariedade, que deverá promover uma reflexão sobre a pobreza e a justiça vivida pelos grupos sociais; uma educação para a não violência, que suscitará repensar sobre o ódio presente nas relações sociais, a não criação de maniqueísmo ou a derrubada da criação de inimigos na convivência social; e, a educação para a dignidade humana que buscará entender os outros dois elementos importantes nas relações sociais: o medo, inerente à convivência humana com aquilo que pode desestruturar as representações sociais e cognitivas de um grupo sociail sobre o mundo ao seu redor; e, a democracia, como possibilidade dos indivíduos serem e estarem no mundo, participando ativamente como cidadãos e da política local, assim como levando a cabo, a vivência dos direitos humanos como parte constitutiva de nossa existência.

Enfim, os valores apresentados pelos direitos humanos é parte da convivência social. Ambos devem ser pontos fulcrais do trabalho do profissional da educação que se encontra nos campos educacionais não escolares. De fato, entender a Declaração dos Direitos Humanos e engajar-se em uma educação para os Direitos Humanos possibilita a uma reflexão sobre o exercício de sua docência de forma ampliada.

Assim, desprendidos dos conteúdos postos pelos currículos da educação formal, o profissional da educação pode exercer a sua docência através de um processo de ensino-aprendizagem que contenha os conteúdos necessários para que os grupos sociais em estado de vulnerabilidade social possam utilizar suas potencialidades para iniciar seus processos de emancipação e transformação social. A convivência e direitos humanos se entrelaçam para se constituir parte de uma Pedagogia Social que promova não somente a formação inicial e continuada do educador social, mas também seja eficaz e eficiente para os grupos sociais empobrecidos atendidos pelas práticas da educação social.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasilia: SEEDH-MEC, 2007.

JARES, Xesús. Pedagogia da Convivência.São Paulo:Pala Athenas, 2008.

_____. Educar para a verdade e para a esperança. Porto Alegre: Artmed, 2005.

_____. Educar para a paz em tempos difíceis. São Paulo: Pala Athenas, 2007.

_____. Educação para a Paz: sua teoria e sua prática. Porto Alegre: Artmed, 2002.

_____. Educación e Dereitos Humanos: estratexias didácticas e organizativas. Galicia: Edición Xerais, 2000.

 

*Frei da Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil 
Doutor em Psicologia da Educação – PUC SP
Professor Adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro


Imagem de destaque: Divulgação/ONU

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