ANO VII - Nº 57 - OUTUBRO/NOVEMBRO/DEZEMBRO 2004

A Consolidação da Obra Agostiniana no Brasil (1940-1962)

RECORDANDO: A Ordem de Santo Agostinho (OSA) organiza-se, atualmente, em unidades maiores chamadas Províncias e em unidades menores denominadas Vicariatos e Delegações. Até a década de 1970, era comum chamar essas unidades menores como Comissarias ou Vicarias e Regiões. A “Vicaria Matritense”, que iniciou sua presença no Brasil em 1929, procedia da “Província do Sagrado Coração de Jesus de Madri” (daí o nome de Vicaria  “Matritense”).

Como vimos no capítulo anterior, por causa da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), em que houve numerosas perdas na Espanha, foi necessário fechar várias casas e obras no Brasil. De dezembro de 1929 a fevereiro a de 1941, retornaram à Espanha sete frades (Evaristo Arámburu, Antonio Fernández – o “pioneiro”, Saturnino Casas, Vicente Rabanal, Manuel Martínez, Carlos Vicuña, Marcelino García). Além disso, alguns Religiosos deixaram a Ordem, ou entrando para o clero diocesano ou exclaustrando-se (Manuel Elvira, Aniano Rodríguez, Agustín Cermeño, Cipriano Alvarez, entre outros).

 A presença agostiniana matritense ficava assim reduzida a três casas: a Paróquia N. Senhora das Graças, em Marechal Hermes (RJ) a casa-mãe (1931), residência do Vicário ou Comissário Provincial; a Paróquia N. Senhora da Consolação, Engenho Novo (1933), também na Capital Federal (RJ); o Colégio Santo Agostinho de Belo Horizonte (1934). Em 1941, a Paróquia São José do Calafate (1934), também na capital mineira foi entregue à Arquidiocese de Belo Horizonte .

 CONTEXTUALIZANDO: As décadas de 1940 a 1960 foram anos muito difícieis, tanto para a Província na Espanha como para a Vicaria no Brasil. Anos de muita austeridade, trabalho, até mesmo penúria em certas situações, mas também de muita dedicação, entrega e generosidade por parte dos frades.

 O Mundo e o Brasil. Os períodos do entre-guerras e da II Guerra Mundial (1918-1945) foram marcados no mundo pela instabilidade econômica e por governos autoritários e ditatoriais: o nazismo na Alemanha, o fascismo na Itália, o franquismo na Espanha. o salazarismo em Portugal. Na América Latina tivemos o peronismo na Argentina e o getulismo no Brasil. De fato, de 1937, após o golpe de Estado de Getúlio Vargas, até 1945, o Brasil viveu anos de ditadura, contraditoriamente chamado o “Estado Novo”. De 1945 a 1963, o país viveu uma época de “democracia”, realizando sua “revolução industrial”, com o crescimento das cidades, a migração e a política liberal, que introduziu o Brasil no mercado internacional. O mais famoso dos Presidentes da República deste período foi Juscelino Kubitscheck, cuja lema era “50 anos em 5”, o construtor de Brasília, a nova capital Federal.

 A Igreja, por sua vez, afirmava-se cada vez mais no cenário nacional, demonstrando sua força de persuasão das massas e influência na área social e até mesmo política. Na época da ditadura getulista, procurou o caminho da “conciliação” e na época de maior abertura, colaborou com o governo e a sociedade civil através de muitos projetos na área social, particularmente no Nordeste e Sul do país. Incentivou a formação de sindicatos católicos e a Liga Eleitoral Católica (LEC), que visava até mesmo formar um grande Partido Católico Nacional. Pastoralmente, sua grande preocupação concentrava-se em tirar o povo da indiferença e “ignorância” religiosa, principalmente na área rural. Nas cidades travava uma luta ferrenha contra o laicismo, a maçonaria, o protestantismo, o espiritismo e o comunismo. Daí a importância de estar presente, através dos leigos, nos sindicatos, nos partidos políticos, na “boa imprensa”, em muitas obras sociais e principalmente no campo do ensino e educação da juventude. Merece destaque a atuação da Ação Católica, em vários níveis, especialmente entre o operariado e a juventude.

 A ATUAÇÃO DOS AGOSTINIANOS. Dentro desse quadro, foi que nossos frades desenvolveram suas atividades no período de 1940 a 1962, consolidando, mesmo com poucas obras, a presença agostiniana matritense em terras brasileiras. Neste período, a Vicaria prestou uma grande ajuda financeira para o soerguimento da Província Matritense na Espanha. De fato, assim se administrava a economia no Vicariato; das entradas provenientes das paróquias e colégio: 25% eram destinados à manutenção dos frades; 25% à manutenção e melhoria das obras e 50% eram enviados à Espanha. Passada a crise, a Província voltaria a enviar outros religiosos para o Brasil. Foi então a sua vez de financiar vários projetos audaciosos com o desenvolvimento de novas obras, particularmente a partir de 1980.

 A Paróquia N. Senhora das Graças (RJ) chamava-se originalmente Paróquia São Paulo, regentada pelos Agostinianos Recoletos de 1920 a 1931. Por ocasião das Bodas de Prata, em 1945, Fr. Marceliano García intercedeu junto ao Cardeal D. Jaime de Barros Câmara, com um grande número de abaixo-assinados, e então a Paróquia mudou seu nome sob a invocação de N. S. das Graças. A igreja era pequena e fez-se necessário a construção de um templo maior. A pedra fundamental foi lançada em 1935 e em 1946 deu-se a consagração da nova matriz. Surgiram muitas associações religiosas de leigos, várias delas com inspiração agostiniana, animadas e orientadas pelos padres: Confraria de N. Sra. da Consolação e Correia, Oficinas de Caridade de Santa Rita, Cruzadinha Eucarística, Congregação Mariana, etc.

 Já a Paróquia de N. Senhora da Consolação e Correia, no bairro Engenho Novo (RJ), foi fundada em julho de 1933. No começo, a Paróquia teve como sede a capela de S. João, situada no morro do mesmo nome. Quatro anos depois foi transferida para a R. Condessa Belmonte. Já então funcionavam várias Associações Religiosas. Em 1947 iniciava-se a construção de um grande templo dedicado a Maria, sendo inaugurado definitivamente em 1961. O espaço do antigo templo, ao lado do novo, foi transformado numa escola de 1º Grau, que iniciou suas atividades em março de 1964: Liceu Santa Rita de Cássia.

 O Colégio Santo Agostinho, de Belo Horizonte, que deu nome ao Bairro onde hoje se situa, funcionou originalmente num prédio alugado na atual Av. Olegário Maciel. O colégio transferiu-se definitivamente para a atual unidade em 1936.  Sucessivamente, com o passar dos anos, recebeu várias ampliações e aperfeiçoamentos. O Colégio cresceu com a Cidade, que virou grande metrópole; acompanhou o ritmo frenético da cidade, adquirindo confiança e respeitabilidade, vindo a transformar-se numa das mais conceituadas instituições educacionais da capital mineira. Este ano completa 70 Anos de existência. Em 1947, iniciou-se a construção da capela do Colégio que em 1964 veio a transformar-se na sede da Paróquia N. Senhora da Consolação e Correia.

 De 1948 a 1952, chegaram novos frades, entre os quais: Guillermo Rubio, Donaciano Treceño, Teófilo Viñas, Gregório Ferrero e Rafael Del Valle. Do período que acabamos de tratar,, não podemos deixar de recordar o nome dos frades que retornaram à Espanha, após anos de intenso trabalho e dedicação:  Nicolás Urteaga, Donato Rodríguez, Marceliano García, Juan Francisco Herrera, Benito Prieto, Victorino Turienzo, Luciano Tobar e Ricardo Rodríguez. Fr. Francisco Gil Sobejano foi sepultado em terras brasileiras.

Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA