A Consolidação da Obra Agostiniana no Brasil (1940-1962)
RECORDANDO: A Ordem de Santo Agostinho (OSA) organiza-se,
atualmente, em unidades maiores chamadas Províncias e em unidades
menores denominadas Vicariatos e Delegações. Até a década de 1970,
era comum chamar essas unidades menores como Comissarias ou Vicarias
e Regiões. A “Vicaria Matritense”, que iniciou sua presença no Brasil
em 1929, procedia da “Província do Sagrado Coração de Jesus de Madri”
(daí o nome de Vicaria “Matritense”).
Como vimos no capítulo anterior, por causa da Guerra Civil Espanhola
(1936-1939), em que houve numerosas perdas na Espanha, foi necessário
fechar várias casas e obras no Brasil. De dezembro de 1929 a fevereiro
a de 1941, retornaram à Espanha sete frades (Evaristo Arámburu,
Antonio Fernández – o “pioneiro”, Saturnino Casas, Vicente Rabanal,
Manuel Martínez, Carlos Vicuña, Marcelino García). Além disso, alguns
Religiosos deixaram a Ordem, ou entrando para o clero diocesano
ou exclaustrando-se (Manuel Elvira, Aniano Rodríguez, Agustín Cermeño,
Cipriano Alvarez, entre outros).
A presença agostiniana matritense ficava assim reduzida a
três casas: a Paróquia N. Senhora das Graças, em Marechal Hermes
(RJ) a casa-mãe (1931), residência do Vicário ou Comissário Provincial;
a Paróquia N. Senhora da Consolação, Engenho Novo (1933), também
na Capital Federal (RJ); o Colégio Santo Agostinho de Belo Horizonte
(1934). Em 1941, a Paróquia São José do Calafate (1934), também
na capital mineira foi entregue à Arquidiocese de Belo Horizonte
.
CONTEXTUALIZANDO: As décadas de 1940 a 1960 foram
anos muito difícieis, tanto para a Província na Espanha como para
a Vicaria no Brasil. Anos de muita austeridade, trabalho, até mesmo
penúria em certas situações, mas também de muita dedicação, entrega
e generosidade por parte dos frades.
O Mundo e o Brasil. Os períodos do entre-guerras e da II
Guerra Mundial (1918-1945) foram marcados no mundo pela instabilidade
econômica e por governos autoritários e ditatoriais: o nazismo na
Alemanha, o fascismo na Itália, o franquismo na Espanha. o salazarismo
em Portugal. Na América Latina tivemos o peronismo na Argentina
e o getulismo no Brasil. De fato, de 1937, após o golpe de Estado
de Getúlio Vargas, até 1945, o Brasil viveu anos de ditadura, contraditoriamente
chamado o “Estado Novo”. De 1945 a 1963, o país viveu uma época
de “democracia”, realizando sua “revolução industrial”, com o crescimento
das cidades, a migração e a política liberal, que introduziu o Brasil
no mercado internacional. O mais famoso dos Presidentes da República
deste período foi Juscelino Kubitscheck, cuja lema era “50 anos
em 5”, o construtor de Brasília, a nova capital Federal.
A Igreja, por sua vez, afirmava-se cada vez mais no cenário
nacional, demonstrando sua força de persuasão das massas e influência
na área social e até mesmo política. Na época da ditadura getulista,
procurou o caminho da “conciliação” e na época de maior abertura,
colaborou com o governo e a sociedade civil através de muitos projetos
na área social, particularmente no Nordeste e Sul do país. Incentivou
a formação de sindicatos católicos e a Liga Eleitoral Católica (LEC),
que visava até mesmo formar um grande Partido Católico Nacional.
Pastoralmente, sua grande preocupação concentrava-se em tirar o
povo da indiferença e “ignorância” religiosa, principalmente na
área rural. Nas cidades travava uma luta ferrenha contra o laicismo,
a maçonaria, o protestantismo, o espiritismo e o comunismo. Daí
a importância de estar presente, através dos leigos, nos sindicatos,
nos partidos políticos, na “boa imprensa”, em muitas obras sociais
e principalmente no campo do ensino e educação da juventude. Merece
destaque a atuação da Ação Católica, em vários níveis, especialmente
entre o operariado e a juventude.
A ATUAÇÃO DOS AGOSTINIANOS. Dentro desse quadro, foi que
nossos frades desenvolveram suas atividades no período de 1940 a
1962, consolidando, mesmo com poucas obras, a presença agostiniana
matritense em terras brasileiras. Neste período, a Vicaria prestou
uma grande ajuda financeira para o soerguimento da Província Matritense
na Espanha. De fato, assim se administrava a economia no Vicariato;
das entradas provenientes das paróquias e colégio: 25% eram destinados
à manutenção dos frades; 25% à manutenção e melhoria das obras e
50% eram enviados à Espanha. Passada a crise, a Província voltaria
a enviar outros religiosos para o Brasil. Foi então a sua vez de
financiar vários projetos audaciosos com o desenvolvimento de novas
obras, particularmente a partir de 1980.
A Paróquia N. Senhora das Graças (RJ) chamava-se originalmente
Paróquia São Paulo, regentada pelos Agostinianos Recoletos de 1920
a 1931. Por ocasião das Bodas de Prata, em 1945, Fr. Marceliano
García intercedeu junto ao Cardeal D. Jaime de Barros Câmara, com
um grande número de abaixo-assinados, e então a Paróquia mudou seu
nome sob a invocação de N. S. das Graças. A igreja era pequena e
fez-se necessário a construção de um templo maior. A pedra fundamental
foi lançada em 1935 e em 1946 deu-se a consagração da nova matriz.
Surgiram muitas associações religiosas de leigos, várias delas com
inspiração agostiniana, animadas e orientadas pelos padres: Confraria
de N. Sra. da Consolação e Correia, Oficinas de Caridade de Santa
Rita, Cruzadinha Eucarística, Congregação Mariana, etc.
Já a Paróquia de N. Senhora da Consolação e Correia, no bairro
Engenho Novo (RJ), foi fundada em julho de 1933. No começo, a Paróquia
teve como sede a capela de S. João, situada no morro do mesmo nome.
Quatro anos depois foi transferida para a R. Condessa Belmonte.
Já então funcionavam várias Associações Religiosas. Em 1947 iniciava-se
a construção de um grande templo dedicado a Maria, sendo inaugurado
definitivamente em 1961. O espaço do antigo templo, ao lado do novo,
foi transformado numa escola de 1º Grau, que iniciou suas atividades
em março de 1964: Liceu Santa Rita de Cássia.
O Colégio Santo Agostinho, de Belo Horizonte, que deu nome
ao Bairro onde hoje se situa, funcionou originalmente num prédio
alugado na atual Av. Olegário Maciel. O colégio transferiu-se definitivamente
para a atual unidade em 1936. Sucessivamente, com o passar
dos anos, recebeu várias ampliações e aperfeiçoamentos. O Colégio
cresceu com a Cidade, que virou grande metrópole; acompanhou o ritmo
frenético da cidade, adquirindo confiança e respeitabilidade, vindo
a transformar-se numa das mais conceituadas instituições educacionais
da capital mineira. Este ano completa 70 Anos de existência. Em
1947, iniciou-se a construção da capela do Colégio que em 1964 veio
a transformar-se na sede da Paróquia N. Senhora da Consolação e
Correia.
De 1948 a 1952, chegaram novos frades, entre os quais: Guillermo
Rubio, Donaciano Treceño, Teófilo Viñas, Gregório Ferrero e Rafael
Del Valle. Do período que acabamos de tratar,, não podemos deixar
de recordar o nome dos frades que retornaram à Espanha, após anos
de intenso trabalho e dedicação: Nicolás Urteaga, Donato Rodríguez,
Marceliano García, Juan Francisco Herrera, Benito Prieto, Victorino
Turienzo, Luciano Tobar e Ricardo Rodríguez. Fr. Francisco Gil Sobejano
foi sepultado em terras brasileiras.
Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA
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