PAPA FRANCISCO NA AMÉRICA LATINA

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A exterioridade e a imagem midiática estão falando mais forte que a Palavra anunciada.

A semana começou com muito alvoroço para muitos no mundo católico devido a Casula utilizada pelo Papa no Equador. Se intensificou o alvoroço a um nível de insultos verbais e até manifestações de ódio com o crucifixo presenteado pelo presidente boliviano. Vejamos o que pode advir ainda com a visita do Papa ao Paraguai. Será que vai sobrar para as espigas de milho utilizadas para decorar o lugar da celebração?

Evitei dar minha opinião e dividir o que se passa pelo meu interior diante de tantas coisas que vejo publicadas, mas creio que é importante ajudar a refletir sobre a realidade e os fatos, superando o publicar manifestações simplesmente para dizer ser a favor ou contra determinados acontecimentos.

O que estamos vendo e ouvindo nestes dias nas redes sociais e mídias, em relação à visita do Papa Francisco à América do Sul, reflete com certeza uma realidade que vive boa parte dos católicos que expressam suas opiniões na rede: uma valorização do que eu penso, do que eu quero que seja a Igreja e o atuar de um Papa, da doutrina que eu defendo, das palavras que me fazem bem e me deixam no conforto e na paz espiritual, de como acredito que deve ser a missão da Igreja, como também refletem a ideologia e o posicionamento político de muitos. Pouco se fala e pouco ouvido se dá a mensagem, à doutrina, ao ensinamento do Santo Padre. Alguns, inclusive com maior influência na mídia, já se mostraram contrários aos ensinamentos do Papa e já o renegam como seu pastor dizendo que o Papa não os representa, pedindo que venha outro Papa.

Na fé cristã, um dos fundamentos mais marcantes, experimentado pelos que conviveram com Nosso Senhor Jesus Cristo, é a escuta atenciosa da Palavra de Deus, a escuta da profecia e da Boa Notícia: o Evangelho: “convertei-vos, e crede... O Reino de Deus está próximo”, “ ide e evangelizai”, “ fazei crescer o Reino”, “ buscai o Reino de Deus e tudo mais vos será acrescentado”... O nível de nossa escuta refletirá nossa capacidade de ser discípulo(a). “Inclina o teu ouvido e ouve as palavras dos sábios, e aplica o teu coração ao meu conhecimento”. (Provérbios 22,17)

Muitas vozes gritaram e muitos se manifestaram contra o presidente boliviano no presente oferecido ao Papa. Que pena que as mesmas vozes se calaram e os ouvidos e olhos parecem ter se fechado ao que pede o Papa Francisco em sua viagem como missionário vindo à periferia da América do Sul; se fecharam à sua voz profética que denuncia o Capitalismo e todas as consequências advindas deste sistema. O que dá a entender é que para muitos um sistema é o maléfico e é inaceitável, devorou vidas, crucificou milhões e o outro é o “ bom sistema” que poderá trazer a felicidade, me realizará, me fará próspero, me dará segurança, bens e acúmulo de riquezas. Porque tantos ficam cegos e indiferentes, se calam diante do mal presente no sistema que impera e se manifesta no "deus Mercado"? A Igreja Católica através das encíclicas sociais é clara a respeito de comunismo e capitalismo. São duas formas de ditadura.

Parece-me que esse tem sido o interesse das mídias que servem ao sistema dominante: fixar nossa atenção em um acontecimento, em uma imagem e afastar-nos do testemunho, do ensinamento, da profecia, da mensagem do Santo Padre. Muita gente católica, em especial a nova geração, entrou nessa dinâmica das grandes mídias: focar em imagens e não dar atenção à Mensagem do Pastor.

Quem sabe consigamos ficar com alguma mensagem e apelo de nosso Pastor em sua visita à Pátria Grande, América Latina, sua casa. Eu escolho de momento esta mensagem: “digamos juntos de coração, nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem velhice digna. Sigam a luta e, por favor, cuidem muito da Mãe Terra”. Creio que é uma das mensagens que mais se aproxima do desejo de Jesus nos Evangelhos.

“Nesta terra onde a exploração, a avidez, os multíplices egoísmos e as perspectivas sectárias obscureceram a sua história”, o Papa Francisco disse em La Paz que hoje “ pode ser o tempo da integração”.

Frei Márcio Vidal

Lima / PERU

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